terça-feira, 26 de março de 2013

Relato de um dia ruim e uma nova esperança


continuação do post anterior, também está no meu outro blog, mas com uma ou outra alteração. aqui está mais completo. 

Era final de janeiro de 2012. Tudo para ser um dia de semana qualquer, mas já começou diferente. Eu sempre me levanto primeiro que o Cleber para adiantar o café da manhã e preparar as coisas. As crises de epilepsia dele se dão principalmente por cansaço mental, privação de sono, e o levantar brusco pela manhã. Pressa matutina você não encontra nesta casa, mesmo que estejamos muito atrasados.

Pois bem, naquela manhã, não me levantei, me lembro de que estava com muito sono. Ele foi tomar banho, voltou e eu mal o vi, confesso. Sei que, de repente, meu pai saindo do banho me chama e diz “Mara, o Cleber tá tendo uma crise, você não viu? Ouvi do banheiro”. Levantei num pulo só, tropeçando no edredom, tentando acordar e quando chego na sala o vejo tendo a crise deitado no sofá. Claro que me senti culpada por não ter visto nem ouvido nada. E ainda bem que ele percebeu que não estava bem e sentou no sofá, senão podia ter sido pior. Esperamos passar, ele recobrar a consciência e descansar um pouco e fomos ao hospital (já percebemos que no hospital eles exageram muito na medicação e preferimos não ir algumas vezes, confesso, mas era dia de semana e ele precisava de um atestado médico).

O hospital, particular, o mais perto de casa que atende nosso convênio, estava muito cheio. Fiquei com ele no quarto do soro, ele deitado e eu sentada ao seu lado. Era um quarto separado por biombos, não víamos os outros três ou quatro pacientes que também estavam ali. Ele dormia e eu lia. Muito calor no dia, e lá dentro também. E o hospital cheio. Um burburinho o tempo todo, pacientes gritando, enfermeiros entrando e saindo. Estávamos no primeiro leito, bem de frente pra porta, e a cortina não ficava fechada o tempo todo, então não tínhamos privacidade. Ele descansava e eu tentava não ouvir o que falavam pelos corredores para evitar que eu ficasse ruim. Percebi que chegaram uns estagiários novos, e alguém estava apresentando o hospital a eles, como uma visita monitorada. Não gostei. As horas passando, e eu sem comer nada. Mal tinha tomado café da manhã e já tinha passado bastante da hora do almoço. Pois bem, o soro dele acabou e ninguém vinha retirar, e eu comecei a ficar muito incomodada com aquilo, com a demora e com o que eu estava vendo voltar pela mangueirinha também. Levantei e fui atrás de alguém que pudesse nos atender. Levantei e tive uma tontura. Para todo lugar que eu olhava, só via agulhas, fios, soros, rostos sofrendo... e enfermeiros rindo, conversando entre si como que alheios ao que se passava em volta. Minha pressão começou a baixar, eu tinha certeza. Falei pro enfermeiro que estava ali “a medicação do meu marido acabou e ninguém vai lá tirar. Chama alguém, por favor”. Deixei-o lá e fui até a lanchonete do hospital tomar um ar e comprar uma água, nem avisei o Cleber. Não deu muito certo. Pra chegar lá era preciso passar por mais pessoas, e pela recepção cheia e quente. Quando peguei a água e tentei abrir, não consegui. Só me lembro que eu falei “não tô conseguindo abrir a água” e a lembrança seguinte já é a de me colocarem numa cadeira de rodas. Desfaleci por alguns breves minutos. E a cena seguinte foi até engraçada: eu entrando no hospital de cadeira de rodas e meu marido saindo, tinha acabado de receber alta.

Entrei na sala do médico e ele já falou: “você tá muito pálida, vai tomar soro e fazer um exame pra ver se tem anemia, tô preocupado”.
Parêntese: óbvio que eu estava pálida, tinha acabado de desmaiar, né!!!  Fecha parêntese.
Tentei explicar meu caso pra ele, que eu sempre fico sensível e passo mal em situações assim blábláblá. Mas ele nem me olhava, só falou “tá, mas você tá pálida, vai tomar soro pra hidratar e fazer exame”. “Mas, doutor, eu fico pior com o soro, porque sofro muito na hora que vão colocar”. Acho que falei mesmo para as paredes, porque a enfermeira me levou da sala.
Enfim, fato é que me levaram pro mesmo quarto em que eu estava como acompanhante.

Precisavam me colocar no soro e recolher material pra o exame. Eu não queria.
Aqui cabe dizer que quando acontece isso comigo, eu só preciso de repouso. Não preciso de mais situações que piorem o meu estado. Mas eu estava muito fraca e qualquer coisa que eu falasse, nem respondiam. 

Meu marido estava na sala do médico, pegando o atestado e finalizando as coisas dele, e também estava um fraco, obviamente, quando chegou para ficar comigo. 
Eu estava ficando mais nervosa, acho que só não desmaiei de novo porque já estava deitada. Não conseguiam achar minha veia. Eu falava “moça, não fala nada, eu não posso ouvir, só faz que eu não vou olhar”. Ela falava. E eu chorava. Para piorar um pouquinho mais, chegou uma outra enfermeira para conversar com ela sobre o que iam fazer depois do expediente, no fim de semana. Conversar!!!! Ela se distraiu e errou a mão (não posso escrever o que houve, porque não tá dando certo, mas em outras palavras ela arrebentou meu braço). Ela terminou o que foi fazer e eu continuei chorando. Não tinha coragem de mexer o braço, nem de olhar para qualquer outro lugar que não fosse o teto.

Minha sogra chegou para ficar comigo enquanto o Cleber ia almoçar (já eram umas 16:00, eu acho). Ela chegou, me acalmou um pouco, e viu que meu braço não estava muito bonito (acreditem, eu não tinha olhado pra ele de jeito algum). Foi lá e pediu pra enfermeira um algodão com água e limpou tudo direitinho., porque nem isso elas fizeram, me deixaram suja mesmo. Me deu água, e ficamos conversando um pouco. Eu dizia: “como vai ser quando eu tiver um filho, Edi? Vou desmaiar na hora do parto?”, e ela “Não, Má, fica calma, na hora a gente ganha uma força que não sabe de onde veio” e me acalmava, conversava outras coisas pra eu melhorar logo.

Saí de lá no finalzinho da tarde, com um grande hematoma no braço esquerdo, exames comprovando que a minha saúde estava ótima e um peso imenso no peito. Durante alguns dias ainda fiquei muito triste por ter sido tratada daquela maneira, sem o mínimo de respeito. E a pergunta que rondava minha cabeça nos últimos meses se tornou uma certeza: eu não poderia contar com a sorte e esperar que profissionais que, até então, eu nunca havia visto me atendessem quando chegasse o momento de colocar uma vida nesse mundo. Iria ser com uma equipe que eu confiasse plenamente, que tratariam o parto – que é um ato fisiológico, e não médico – de forma respeitosa e humana.

Naquela época, eu ainda sabia pouco sobre o assunto, mas já havia visto o vídeo lindo da Sabrina. Foi o primeiro vídeo que eu vi sem tampar os olhos em nenhum momento e achei um bom sinal. Fiquei feliz com o que vi. Havia, em algum lugar não tão longe de mim, pessoas capacitadas que entendiam que as vontades das mulheres devem ser respeitadas. Pessoas que entendem que a natureza é perfeita, e se podemos gestar, com certeza podemos parir também. O nosso corpo sabe o que fazer. Intervenções acontecem em alguns casos somente, e não “por rotina”, pra ir mais rápido; e mesmo se precisar intervir, o respeito vai existir em todo processo. Pessoas que sabem que a mãe é a protagonista, e não os médicos. Senti uma esperança de ser ouvida, finalmente.

Então eu comecei a pesquisar mais, ler mais, aprender mais. Algumas palavras, que antes não me eram familiares, hoje eu já entendo melhor. Parto natural, parto humanizado, doulas, intervenções de rotina (ocitocina sintética, episiotomia, etc, etc), parto domiciliar, cesárea eletiva. Como funciona ou não funciona com os convênios médicos, com os grandes hospitais particulares, no SUS. Medicina baseada em evidências. Taxas de cesáreas no Brasil. Mulheres empoderadas. E muito mais coisas. As peças foram se encaixando lentamente na minha cabeça e até hoje eu leio muito, claro, nunca vou parar de ler. Porque eu entendi que, para ter o meu maior desejo realizado, além de vencer essa minha sensibilidade, terei que lutar contra um sistema inteiro que domina o nosso país. Um sistema que está mais interessado em manter as agendas dos médicos livres aos fins de semana e feriados, e seus bolsos com mais dinheiro (fazendo os índices de cesárea chegar a mais de 90% em alguns hospitais particulares, quando a OMS recomenda até 15%), do que respeitar a fisiologia do parto, a ordem e o tempo natural de cada uma. Um sistema que já tomou muitas decisões por mim – e eu não posso permitir que a minha voz seja abafada dessa maneira.
Acho que aqui cabe dizer que eu não tenho medo da dor. Entendo-a como parte do processo de trazer a esse mundo um amor que ainda desconheço, mas sei que é incondicional. Sei que há modos de lidar com ela, e que quando eu as estiver sentindo e não me lembrar que escrevi isto, terei ao meu lado quem me lembre e não me faça desistir. 

Além do medo de cair nas mãos de um médico cesarista, eu tenho medo da violência obstétrica, que existe, que acontece com muitas mulheres. Infelizmente, é um quadro real no nosso país. Eu tenho medo disso porque eu já sofri violência psicológica em hospitais também, e doeu. Nem preciso de muita imaginação para saber que, se eu sofro isso hoje, grávida então a coisa vai piorar, porque ficamos mais sensíveis e tudo mais. Tenho medo de pessoas passando por cima de valores básicos, inutilizando aquela mãe - que só precisa ser ouvida, acalmada, encorajada, respeitada - como se seu corpo fosse objeto de estudo naquele momento.

Quer dizer, eu tinha medo. Não tenho mais.
Agora, um ano depois do que relatei ali no início, depois de tanta busca – interna e externa - me sinto mais segura. Sei também que terei que fazer alguns esforços financeiros para que eu tenha ao meu lado os profissionais que escolhi, mas todo esforço será recompensado, se Deus quiser. A minha sensibilidade vai ser superada também. Porque as pessoas que estarão comigo durante todo o tempo serão escolhidas a dedo. Pessoas de bem, que acreditarão na minha força e na perfeição da natureza. Porque hoje acredito mais em mim.
Não tenho mais medo, porque percebi que não estou sozinha nessa. Sou grata a Deus por ter descoberto tudo isso ainda antes de ter um filho. Muitas mulheres só se dão conta depois que tudo passa. E a força que todas temos, juntas, para superar e mudar esse quadro, é imensa.

Ainda há muito a aprender, e a maioria desses aprendizados virão mesmo com alguma prática.

Esta história está apenas começando...

2 comentários:

  1. Marina,

    Confesso que ao ver esse texto seu, pensei: Eita! Texto grande!!!(Depois de passear e ler uns outros 6 blogs sobre maternidade e afins, a gente faz leitura dinâmica nos últimos...rs)
    Mas logo no primeiro parágrafo você prendeu minha atenção!
    E quando percebi já estava lendo que "ainda há muito a aprender..."
    Adorei!!!

    Beijos

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    Respostas
    1. Oi, Márcia, obrigado por ter lido tudo e ainda comentado, rs... realmente eu escrevo muito mesmo, não sei mais resumir, hahaha
      Resolvi relatar tudo isso porque foi assim que eu comecei a pesquisar mais e aprender mais. E também assim estou aprendendo a controlar a minha sensibilidade.

      Volte sempre tá?!
      Beijo

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