terça-feira, 13 de agosto de 2013

O relato que eu não queria fazer, nunca - o dia.

Post longo, que terá que ser dividido em duas partes (a segunda sai ainda hoje também), e que foi revisado entre lágrimas. Ou seja, é favor perdoar algum erro ou repetição.
Este é o relato de como eu descobri a perda do meu bebê.
Sinta-se à vontade para não ler, qualquer que seja o seu motivo. 

Quinta-feira, 08 de agosto de 2013.
Marido e eu saímos cedo, porque era dia de consulta pré-natal na Casa Angela. Desta vez, fomos atendidos pela Fran, uma EO que ainda não conhecíamos (pois seu plantão era à noite). Conversamos bastante, falei como me sentia - essas coisas todas de consulta - e chegou o momento de ouvir os batimentos cardíacos do bebê. Me deitei na cama/maca, levantei o vestido e esperei. Ela ainda disse "esse sonar é antigo, então faz um chiado". E realmente fazia, como um radinho fora da estação. Ela procurou, procurou, procurou... e não conseguia ouvir o coração do bebê. Saiu sala, pegou outro sonar - mais novo, que eles usam durante o trabalho de parto - e foi tentar de novo. Tentou muito, em vários pontos da minha barriga, e nada. Conseguiu pegar a minha frequência cardíaca, mas nada do bebê. Ela conversou com ele, apalpou a minha barriga, como se fosse uma massagem, e tentou de novo. Nada. Absolutamente nenhum sinal. Eu, que já estava com medo, comecei a me apavorar. Ela ainda disse que ele poderia estar escondido, sei lá, mas eu sabia que com 17 semanas era difícil se esconder. Ela me deu uma guia de ultrassom pra eu fazer caso me sentisse muito angustiada, pois ainda faltava quase um mês pro morfológico do 2º tri. Saímos do consultório e, na sala de espera, demos de cara com duas famílias, com seus mini bebês fofinhos. Meu coração ficou apertado, senti um peso no peito. Bebi água e fomos embora.
Chegando no metrô, eu falo pro Cleber (que estava o tempo todo tentando me acalmar): "eu queria muito ir fazer esse exame agora, não vou aguentar esperar até sábado" (sábado seria o dia que ele poderia ir comigo). Ao que ele disse "tá bom vai, vamos lá fazer o exame, eu vou com você". No caminho, eu disse pra ele: "a maternidade é mesmo um eterno cuspir pra cima e cair na testa; eu estava toda confiante, querendo fazer o mínimo de ultrassons, e agora tô aqui, indo fazer um toda ansiosa".

Parece que demorou três anos até chamarem meu nome. Minha mão já suava, fria. Quando finalmente fui chamada, o Cleber entrou comigo, mas não ficou do meu lado, pela posição do aparelho e de onde estava a médica. E aí aconteceu o que, na minha visão, foi o mais duro de tudo. A médica colocou a imagem na tela e eu logo falei: "você tá vendo alguma coisa?", e ela balançou a cabeça dizendo que não. Acho que posso afirmar que uma cratera se abriu no meu peito naquele instante. E eu perguntei aquilo porque, quando olhei a imagem, não foi o meu bebê que eu vi. Não era a minha Bolota ali, em preto e branco. Eu sabia que ela já tinha ido embora. A médica tirou o aparelho e colocou na minha barriga de novo, e eu realmente não conseguia identificar - literalmente - o que a imagem mostrava. Eu devo ter falado mais alguma coisa, mas era mais silêncio que tinha na sala. Eu ainda não chorava. Chamei pelo Cleber, precisava ouvir sua voz. Chegou um outro médico - devia ser especialista, não sei, e conversaram alguns minutos, e ele confirmou, em termos técnicos que não me lembro, o que tinha acontecido.
Acho que foi nesse momento que ela disse, com uma voz baixa e bem suave: "olha, o seu bebê parou de se desenvolver". Hoje eu agradeço pelo jeito que ela disse, foi super delicada mesmo. Me mostrou o que ela e o médico disseram, que a cabecinha estava bem maior do que as perninhas, tanto que chamava até atenção. Por isso eu não conseguia identificar nada. Não tinha movimentos, não tinha barulho, não tinha batimentos cardíacos. Nada. Ainda perguntei se eu havia feito alguma coisa errada, e ela me me disse que não, que muito provavelmente era uma falha genética mesmo, e que a natureza é sábia. Não sei mais o que falamos. Aí eu perguntei "e agora?", e ela disse pra eu ir no hospital. "Agora?", "é, acabar logo com isso, né?", foi o que ela me disse. Ainda me ajudou a levantar e aí eu desabei. Ainda sentada, chorei, muito. O Cleber veio me abraçar - o primeiro de muitos nesses dias. Deixaram que ficássemos ali uns minutos. Meu coração ardia de dor. Coloquei os óculos escuros mesmo a sala estando na penumbra e ainda consegui dizer que daria tudo certo.

Sentamos pra esperar o resultado, e eu chorava mais. Grudei no Cleber e só chorava. Depois eu soube que ele esteve à beira das lágrimas também, mas segurou firme, por mim. Preciso me lembrar de me casar com esse homem de novo. Ele dizia que me amava, que estava comigo, que não tinha sido minha culpa, que iria cuidar de mim sempre, que o tempo de Deus é o certo. Eu me lembro de agradecer todas essas palavras, balançar a cabeça que sim, eu acreditava nele, tentar afirmar que tinha que ser assim e falar que o nosso bebê tinha ido morar no céu.
O laudo chegou e eu não sabia o que fazer. O Cleber tentou ligar pro meu pai, desligado. Liguei pra minha mãe, chorando: "mãe, não tem mais bebê", e ela ficou totalmente abalada - devo ter explicado mais ou menos o que houve, e ela disse que ia dar um jeito de achar meu pai, mas não precisou, porque nesse instante o Cleber conseguiu falar com ele, e ele disse que estava indo nos buscar.
Lembrei que não tinha plano de saúde e que não queria me internar em qualquer hospital. Falei que eu não tinha nem médico, e me lembrei que tinha, sim, a Betina. Fui sendo invadida por uma certeza de que eu precisava fazer alguma coisa, agir. Mas ainda chorava. O Cleber ligou pra Betina e conseguiu um encaixe pra mesma tarde - ela disse que tinha que me ver antes de falar o que era pra ser feito. Mandei uma mensagem pra Isa, ela me ligou, disse que iria onde eu estivesse, que ficaria comigo caso eu precisasse passar por um trabalho de parto no hospital, ou qualquer coisa assim. Minha mãe ligou de novo, eu contei que ia na Betina e ela disse que ia dar um jeito de chegar lá também. O Cleber avisou no trabalho que não iria mais e, quando disse o motivo, o chefe deu o dia seguinte de folga também. A gente ainda estava no laboratório, era por volta de 13: 30 da tarde. Eu olhava a rua, enxergava todo mundo em câmera lenta. Abraçava o Cleber, chorava mais. Eu não sabia o que ia acontecer. Eu não sentia fome. Eu tinha medo.

Aos poucos o choro cessou e fui ficando anestesiada. Eu só esperava o próximo passo - que naquele momento era esperar a chegada do meu pai. Ele chegou e decidimos que iríamos buscar minha mãe no trabalho, e depois ir direto pro consultório da médica. Quando finalmente chegamos, meu pai ficou no carro e subimos nós três pra consulta. A Betina viu o ultrassom, mas aí eu disparei a contar o dia e ela só leu a parte que o desenvolvimento do feto estava muito abaixo do normal, não leu tudo porque parou pra me ouvir. Ela achou que ainda tinha chances. Mas aí mostramos as últimas frases e ela entendeu. Pediu muitas desculpas pelo mal entendido. E disse que eu podia esperar, que meu corpo ia agir. Eu ainda estava na vibe do "tenho que agir agora" e pensei mesmo que teria que ir direto pro hospital, meio que me preparei pra isso. Minha mãe fez mil perguntas. A Betina disse que eu poderia escolher, que se eu esperasse meu corpo agiria, sim, mas que se fosse emocionalmente muito pesado pra mim, eu podia ir pro hospital induzir, e ainda disse que eu entraria em trabalho de parto, que ia doer bastante e que ia ficar sangrando mais que uma menstruação. Minha mãe perguntou o que ela achava melhor. E eu disse: "ela acha melhor esperar. Né?" "É, na minha opinião é melhor esperar". Foi aí que me lembrei. Eu prezo pelo natural. Pelo fisiológico, pelo tempo da natureza. E foi por isso que eu havia escolhido aquela médica. Eu perguntei do chá de canela, ela confirmou que era bom, e que o de gengibre também. Disse que a decisão era minha, mas que eu podia pensar mais um pouco, em casa. Que se acontecesse em casa, talvez eu nem precisasse de hospital depois, mas que se sangrasse demais, eu tinha que ir. O meu medo era ter que olhar pro que ia sair de dentro de mim, essa é a verdade. Eu não fazia a mínima ideia de como seria. Eu não estava preparada.

Chegamos em casa, e aqui eu não sei mais o que escrever. Não me lembro. Lembro que eu não chorava, que sentia uma tristeza imensa. Não queria conversar sobre isso. Sentia umas cólicas leves. Devo ter comido alguma coisa, não faço ideia de quê. Só me lembro que eu estava sentada no sofá, o Cleber do meu lado, a tevê ligada.

(continua...)

16 comentários:

  1. -meu coração apertou agora ..não sei o que dizer..
    que o espirito santo possa consolar seu coração..
    pois nesse momento só encontramos consolo no pai..



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  2. Marina,
    Nem sei o que te escrever!
    De verdade saiba que mesmo que não nos conheçamos, que meu coração bate junto ao seu nesse momento.
    Sinta sua dor, e quando for a hora descarte-a e siga adiante, rumo a uma linda nova etapa com a sua família e com seus bebês que chegarão lindos e saudáveis no tempo deles =)
    Um beijo e abraço carinhoso

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  3. NOSSA, NÃO SEI NEM O QUE DIZER NESTE MOMENTO.....ESPERO QUE DEUS CONFORTE O SEU CORAÇÃO!!!!CONFIA EM DEUS NESTE MOMENTO DIFICIL, POIS ELA SABE TUDO QUE É MELHOR NA NOSSA VIDA....E RECEBA UM ABRAÇO CARINHOSO MEU!!!!

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  4. Marina, eu fico muito triste de ler seu relato...meu coração se aperta, sua história se parece de mais com a minha e isso só intensifica a dor.
    Deus está do seu lado, com certeza. E a dor não passa, mas diminuiu...um dia de cada vez, aos poucos esse anjo na sua vida vai se tornando cada vez mais anjo....

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  5. Lendo seu relato conseguimos sentir que foi e é muito mais difícil do que imaginamos.... Força amiga, Deus esta contigo.
    Bjus
    http://seraquevousermae.blogspot.com/

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  6. Mari acredito que vc esteja ouvindo e lendo isso mto, mas preciso dizer de novo: menina, como admiro essa força que vc tem!
    Força pra encarar esse momento, para escrever um relato tão triste, mas tão sincero...
    Pode ter certeza que estou sofrendo junto com vc, mas te mandando toda a energia positiva possível!
    Deus te abençoe, te conforte e te ajude a manter essa força inabalável!
    Bjos!

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  7. Má ñ sei de onde vc tirou tanta força, te admiro demais!!
    Eu ando tão encanada por ñ sentir meu bebê que morro de medo de passar por isso pois ñ sei se teria forças!!
    Sinto muito por vc querida, tenho rezado mto para Deus te dar ainda mais forças!!

    Beijos

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  8. Marina, q dor vc deve estar sentindo.
    Meus sentimentos estao com vc nessa hora.
    Peço a Deus para confortar o coraçao de todos vcs.
    E lembre, isso q està acontecendo nao è o fim,
    pois Deus lhe darà mtas bençaos e mtas alegrias!
    Deus vos abençoe.
    Luisa.

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  9. Marina, Você é uma guerreira!!! Me inspiro muito em você! Só peço a Deus para que conforte o seu coração e o de sua família também. E tenha fé em Deus e tudo ficará mais suave...

    Bjs

    http://meumilagrerealizado.blogspot.com.br/

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  10. Acompanhando vc, querida.
    Sempre.

    Beijos!

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  11. Mari, não consigo imaginar o quanto foi doloroso escrever e vivenciar tudo isso, só posso compartilhar da sua dor, oferecer meu colo, meus ouvidos e meu abraço, mesmo que virtualmente.
    Você não está sozinha, que Deus transforme essa dor em saudade, que fiquem só as lembranças boas!
    Bjuss

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  12. Marina, eu perdi um bebê com 16 semanas de gestação. Dói, muito. E me doeu ler teu relato. Mas é ótimo por pra fora, faz a gente tentar lidar melhor com a situação. Tudo fica borrado mesmo, e até hoje, 11 anos depois, tem coisas que não lembro daquele dia.

    Força ai flor
    Beijo

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  13. Marina, além de tudo o que já te disse, eu queria te agradecer por compartilhar esse momento com a gente. Estamos aprendendo muito com você. Muito mesmo!
    Um beijo, queridona.

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  14. Oi Marina, primeira visita no seu blog. Chorei. Sinto muito por vc. Sei como vc se sente, também tive uma perda recente. É uma dor indescritível, mas uma hora ela diminui...
    Tenha forças e se vc acredita em Deus, confie nele.

    Abraços!

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  15. Nossa...tô em transe aqui! Muita emoção ao ler tudo isso... o mais impressionante é que vc estava com 17 semanas é isso? E nos ultrassons anteriores estava tudo normal?

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  16. oi sou a Dara....tmb chorei lendo seu relato.....tou gravida de 16 semanas e morro de medo de perder meu bebe...n aguentaria tanta dor....ainda n ouvi o coracaozinho dele e n fiz nenhuma ultrasson...estou apavorada....e ainda n sinto ele mexer..meu deus....me ajuda....qro saber se meu bebe ta bem...

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