quinta-feira, 31 de outubro de 2013

Grande encontro

O encontro mais maravilhoso do ano aconteceu nesse último fim de semana: conheci, pessoalmente, a amada, salve-salve: Nana, a Louca do Bebê \o/
Gente, cêis num tem noção do quanto foi lindo, mágico, purpurinas por todos os lados. Quer dizer, vão ter noção, sim, agorinha mesmo, porque vamos contar tudinho (postando ao mesmo tempo, para não sermos influenciadas pelo texto uma da outra, né amiga? haha).

Das coisas que bolota me ensinou: a amizade transcende o mundo virtual.
Tudo isso aqui que a gente chama de blogosfera e redes sociais são muito reais, sim, e pode nos trazer surpresas deliciosas.
A Nana acompanha a minha história desde o começo, foi inspirada nela, inclusive, que criei esse puxadinho aqui. Nos aproximamos bastante, conversamos muito, nossos papos são sempre construtivos pra mim. Ela é uma boa amiga, daquelas que a gente pode contar sempre, na alegria e na tristeza, e eu confio muito nela. E então, lá em agosto, quando soube do ocorrido, ela me ligou e, dentre outras coisas, convidou Cleber e eu para irmos passar uns dias em sua casa. Gente, que coisa mais linda essa! Fiquei emocionada quando ela me fez o convite, de verdade. Um gesto tão lindo de amizade, de confiança, de tanta coisa. Na época, tudo o que eu queria, realmente, era viajar, espairecer, respirar outros ares, mas não dava para ser de imediato, pois meu repouso não permitiu - o que não me impediu de não só aceitar o convite, como ficar pensando sempre nisso. Depois de algum tempo, decidimos ir agora em outubro. Dia 28, segunda, foi dia do funcionário público (leia-se: ponto facultativo) e, apesar de não ser um efetivamente, marido trabalha prestando serviço pro Estado, então teria essa folguinha. Compramos as passagens de avião, acertamos tudo com ela, e aí foi só esperar o dia chegar. E vou contar uma coisa pra vocês: fazia um tempinho que eu não sentia uma ansiedade assim por uma viagem. Ficava pensando mil coisas, como seriam nossos dias e tal. E foi tudo melhor do que o imaginado, se me permitem dizer.

Chegamos em Salvador na sexta à noite, e ela estava lá, nos esperando no desembarque. "Ela existe mesmo!" foi a frase que saiu de nossas bocas assim que nos abraçamos. Pense numa pessoa feliz por estar ali? Eu! \o/ Comemos um cachorro quente delícia já em sua casa e ficamos, nós três (o marido dela está viajando) conversando até altas horas, já era madrugada quando fomos todos dormir.
Aqui devo dizer que a Nana é uma super mega blaster anfitriã. Nos recebeu muitíssimo bem, fez com que nos sentíssemos realmente em casa. E uma guia turística de primeira, também. Fizemos um roteiro intenso, digamos assim, conhecemos praticamente tudo nos 2 dias e meio que ficamos lá.
Por ordem cronológica: Igreja do Nosso Senhor do Bonfim, com direito a rezar juntas e amarrar fitinhas na grade juntas. Almoço num lugar super gostosinho que esqueci o nome, com vista pro mar - ou, o dia em que comi moqueca de camarão pela primeira vez e amei. Sorvete da Ribeira - delicioso mesmo, preciso dizer. Mercado Modelo, que eu acabei nem voltando depois para falir o meu bolso comprando tudo que achasse pela frente fazer mais comprinhas; ou seja, mais um motivo pra voltar depois, hehe. Elevador Lacerda. Pelourinho, lindo, animado, colorido, com uma energia incrível. Fundação Casa de Jorge Amado - apenas amei esse lugar. Teve uma visita numa galeria de fotografia no Pelourinho também, bem linda. Pôr do Sol no Solar do Unhão, maravilhoso, com show de jazz depois, muuuito bom. Isso no primeiro dia. No domingo, Dique do Tororó, sentados na grama e depois indo atrás de um saco de pipoca, que eu não descansei enquanto não comi, haha. Depois andamos pela praia da Barra, lotada, almoçamos num outro restaurante com vista pro mar (pense como tava ficando chato? rs), fomos ao Museu Náutico que tem no Farol, muito legal, e também subimos lá em cima e assistimos um pôr do sol de aplaudir (literalmente) depois - ou, o dia em que eu morri de medo de descer aquela escadaria porque tenho medo de altura e os degraus são pequenos, haha. À noite, ida estratégica ao bairro Rio Vermelho para comer acarajé a abará, também pela primeira vez (e gostei mais de acarajé, a quem interessar possa, rs). Tudo isso com aulas de história e conhecimentos gerais, porque a baiana em questão sabe tudo, minha gente. Na segunda ela tinha que ir trabalhar, então marido e eu fomos à praia e almoçamos sozinhos. À tarde, aeroporto, e casa.

E eu não sei como, mas fizemos tudo isso sem correria, nem confusão. Simplesmente os dias foram fluindo. Deve ser efeito da Bahia, o tempo rende por lá. Porque nesses intervalos ainda teve cafés da manhã conversando tranquilamente - sobre parto, escolhas, empoderamento, rá! rs. Boas noites de sono. Filme, beijinho (que minha mãe fez e levei pra ela), abraços, histórias, músicas no carro, muitas risadas. Ai, tanta coisa. Foi tãããooo bom! Escrevendo esse texto e editando as fotos deu uma saudade danada.

E sim, gente, ela é real. Linda, elegante, inteligente, boa pessoa... Tá, falando assim parece que não é real, mas juro que é, haha. Fizemos fotos das nossas pernocas pra dividir especialmente com vocês (marido foi nosso fotógrafo oficial). Sabe tudo isso que ela é no blog, no face, no e-mail? Querida, atenciosa, bem humorada, e mais todas as coisas que a gente já sabe? Então. Existe mesmo, numa pessoa de carne, osso e dedicação. Resumindo muito resumidamente: é daquelas pessoas que a gente quer ter sempre por perto, sério mesmo. Não queria falar demais, pra não ficar puxando o saco, rs, mas é que realmente foi um presente conhecê-la "no mundo real".

E só umas palavrinhas pra ela, antes das fotos...

Nana,
não tenho palavras para agradecer os dias lindos que você nos proporcionou aí em sua casa. Eu ainda não sei descrever (mas quando souber vai nascer outro texto, aguarde) o bem que essa viagem me fez. Sei que foi grande, que foi importante, que mudou alguma coisa de lugar aqui dentro - ou melhor, colocou alguma coisa em seu devido lugar aqui dentro. Você pode nem saber, mas aprendi muito nesses dias aí na Bahia. Poder te conhecer de pertinho me fez te admirar ainda mais, saiba disso (ainda mais que era fim de ciclo, e o jeito que você lidou com isso só me fez pensar que você está no caminho certo, já deu certo!, porque tudo isso é parte do caminho, e você o está trilhando lindamente). E me fez entender e gostar ainda mais dessa coisa de ser quem a gente é. Com controle, com entrega, com ansiedade, com sentimento - e tô falando de nós duas em todos os itens, cada uma à sua maneira. Não é fácil, mas vale a pena, ô se vale!
E em caso de incêndio ou ansiedade exacerbada, é só lembrar: continue a nadar, continue a nadar...

Obrigada, mais uma vez, por tudo. 
Nossa amizade agora está no mundo real, ainda bem.
Já estamos com saudade e queremos voltar em breve (o Cleber te adorou (quem não, né?), também amou tudo e está animado para uma próxima vez, rs).

Beijo e abraço apertado,
Má e Cleber



Igreja do Bonfim

Pernocas das moças

Amarrando fitinhas juntas

<3

 Sorvete delícia da Ribeira

 Lá no alto do Elevador Lacerda

Comprinhas e outras coisas mais na Casa Jorge Amado 

Pôr do Sol no Solar do Unhão 

Andando no Dique do Tororó

nem tava cheia...

Lá no alto do Farol

Segunda linda na praia

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Talvez, talvez...

Atenção: post altamente abstrato. Estou tentando organizar as ideias e acho que não tem coisa com coisa, mas tô postando assim mesmo, rs. Agradeço a compreensão de todxs. 

Eu acho que sempre fui uma pessoa que confia. Confio nas pessoas, confio em Deus, confio em mim. Quer dizer, essa confiança toda foi e está sendo construída ao longo dessa minha estrada, mas de uma forma geral podemos dizer que sou confiante.

História para ilustrar: 
Em 2010, fomos todos (família unida, lembram? rs) ao shopping e meu pai aproveitou para comprar umas roupas, pois estava precisando. Ele é a pessoa que mais economiza, sempre quer tudo o mais barato possível. Nesse dia, ele se permitiu entrar numa loja em que nunca tinha comprado nada e gastar umas centenas de dinheiros. Estava clima pré-copa do mundo e o shopping, juntamente com o cartão Visa (isso não é um publipost, hahaha), fizeram uma promoção: a cada tantos reais em compras, você ganhava um cupom para concorrer a uma viagem à África do Sul para assistir um jogo do Brasil, com acompanhante. Meu pai, que adora um sorteio, foi lá e depositou seus cupons, olhou pra minha mãe e falou "nós vamos pra África!"; rimos todos daquela remota e longínqua possibilidade e a vida seguiu. Uns dias depois (não me lembro se uma semana ou duas) meu pai foi viajar, lá pra nossa roça, em Minas, onde mal tem sinal de televisão, quanto mais de celular, e deixou seu aparelho em casa. Uma tarde qualquer, eu estava aqui em casa, bem gripada, meio zonza até, o celular dele toca. Atendi. A moça do outro lado da linha diz: "(...) é sobre o sorteio da viagem, do shopping Eldorado, ele ganhou!!! (...)". Gente, vocês não têm ideia. Eu pulava na sala, toda feliz, toda serelepe. Disse que ele estava viajando e ela pediu pra ele voltar logo, pois tinham que acertar tudo. Liguei pra minha mãe, que estava trabalhando, dei a notícia, ao que ela solta "mas será que é verdade? Será que não é golpe?". Várias pessoas pensaram isso. Me senti meio ingênua, mas tinha certeza que era verdade. Esperei uns minutos, entrei no site do shopping e lá estava: o nome completo do meu pai como ganhador. Ele realmente voltou mais cedo para acertar tudo (nem passaporte eles tinham ainda) e quando ele foi assinar os papeis na administração do shopping, a mulher (a mesma que ligou) falou que eu fui a única pessoa que acreditou de primeira e comemorou, todas as outras acharam que era trote ou pegadinha. Resumindo: meus pais foram pra África do Sul, ficaram uma semana por lá. Assistiram ao jogo do Brasil (o último que ganhamos, ainda bem, rs), visitaram vinícolas, o Cabo da Boa Esperança, vários passeios, jantares, hotel legal, com absolutamente tudo pago. 
E algumas pessoas se espantam mais com o fato de eu ter acreditado de primeira do que na viagem que eles fizeram, hahaha

Enfim. Tudo isso pra falar que estou insegura comigo mesma.

pausa pra vocês rirem da minha cara, por ter enrolado tanto para dizer isso, super me sentindo demais pelos meus dotes confiancísticos e depois falar isso assim na cara dura.

despausa. 
prosseguimos. 

Talvez aquela crise que eu disse uns posts atrás não tenha ido embora totalmente. Talvez tenha ido embora a parte profissional e no lugar esteja a parte gestacional. Talvez eu seja a própria crise em carne e osso e ela nunca me abandonará #dramamodeon

Esse ciclo está sendo diferente. Eu disse que não queria voltar a tentar (nem evitar), porque foi isso que senti que deveria fazer naquele momento, a vontade realmente estava gritando aqui dentro, mas pode ser que isso mude daqui um ou dois ciclos e tudo bem, nada é muito definitivo na (minha) vida. 
Tá, mas não é sobre isso também que eu quero falar agora. Sinceramente, já faz uns três dias que estou diante da tela em branco esperando um melhor jeito de elaborar, e nada.

Tive várias sensações (referentes a um futura gestação, no caso) desde o início do ciclo. Várias. Fortes, fracas, felizes, de medo. Anotei quase todas para não esquecer e fazer um "estudo detalhado" depois. Tem sido um processo bem solitário, na verdade, ninguém sabe disso. Geralmente o Cleber sabe essas coisas, mas não contei dessa vez (o que não significa que ele não possa ter reparado em algo). Sei lá, é uma coisa minha, não quero muita interferência de fora agora.

Mas agora nesse final tá meio puxado. 
Talvez eu não tenha cumprido ao pé da letra a parte do "sem interferências de fora" e li mais do que deveria (o que não significa que informação me atrapalha, tenho aprendido realmente muuita coisa ótima e válida, que vale post depois; estou falando da minha autoconfiança mesmo). 

O fato é que comecei a "duvidar" das coisas todas que senti, é isso. Pode ser que eu esteja precipitada e tenha entendido tudo errado. Pode ser que seja tudo coisa da minha cabeça. Pode ser que eu seja mesmo muito ingênua e acredite até em Papai Noel. E sim, duvidar do que eu sinto, pra mim, é uma coisa grave.

Na verdade, o fato de ter perdido um bebê me deixou com o pé atrás nesse lance de gestação. 
(É isso! Insights assim só me chegam quando estou escrevendo. Enfim.)
Fico pensando como vai ser na próxima vez. Quero tanto um filho, que acho que nem consigo mensurar direito. Em contrapartida, acredito que tudo tem a hora certa para acontecer, mas que temos que fazer nossa parte, porque né?! nada cai do céu. 

Tenho medo de ter outra perda? Sim, um baita medo. 
Só que maior do que esse é o medo de não entender mais o que eu sinto. Medo de me iludir. 
Na verdade, eu não contei pra ninguém tudo que vem acontecendo também para evitar que me mandem relaxar e pra eu parar de ser ansiosa. Sabe, o que eu sinto agora pode até ser uma certa ansiedade, mas não é essa minha questão. Ansiosa eu sempre fui, só que hoje a uso mais a meu favor, não deixo que ela se transforme num stress (pelo menos tento). E, independente do que aconteça, maternidade sempre estará no meu topo de interesses.

Meus pensamentos estão bagunçados. Talvez ainda demore muito pro meu bebê chegar. Talvez eu me sinta culpada por não estar exatamente aonde eu achei que deveria estar (seja lá o que isso signifique). Talvez eu ainda tenha que aprender muita coisa, comer muito arroz com feijão para que as coisas aconteçam. Talvez eu deva fazer mais. Pensar menos. E veja bem, isso pode até não ser de todo ruim, e não deve ser mesmo. Só que eu ainda estou muito perto pra saber. Talvez daqui um tempo eu veja isso como só uma fase da espera pela espera. 

Só sei que agora, neste instante, tudo que eu queria era ter um pouco mais tranquilidade de novo. E encontrar algum sentido nessa minha bagunça.
Até lá, só me resta ir - quem sabe eu não (re)encontre a minha confiança pelo caminho e a pegue de volta pra mim?


segunda-feira, 21 de outubro de 2013

Marcha Pela Humanização do Parto

Eu queria ter vindo antes, mas o fim de semana foi de zero tempo livre. Então, vamos hoje mesmo, que antes tarde do que mais tarde, não é? rs

Sábado, 19/10, aconteceu em mais de 30 cidades do Brasil a Marcha Pela Humanização do Parto.
O objetivo é chamar a atenção para questões como o crescimento da violência obstetrícia e o número de cesarianas no país. E também em apoio aos profissionais que oferecem assistência humanizada e respeitosa às famílias - obstetras, doulas, enfermeiras obstetras - baseados em evidências científicas, e que sofrem com perseguições das instituições de saúde - que estão mais interessados em conveniências e cifrões, como bem sabemos.

Aqui em São Paulo a Marcha foi na Avenida Paulista, às 10:00, e reuniu 300 pessoas. Eu (e marido) estive presente, muito feliz, aliás, porque foi a primeira vez que participei de uma marcha. Que bom que foi pela causa que eu tanto defendo e acredito.
Nos reunimos em frente ao prédio da Gazeta e marchamos até o Tribunal de Justiça, bem pertinho, mas foi muito gostoso. Estar ali com tantas pessoas que acreditam e lutam pelo mesmo ideal, andando juntas e dando voz a sentimentos, desejos e pedidos. Gestantes, famílias inteiras, bebezinhos. Muito slings, barrigas pintadas, cartazes, camisetas e um céu azul lindo. 
Quando chegamos ao prédio do Tribunal, a obstetriz Ana Cristina Duarte leu o documento - com mais de 300 assinaturas - que pedia o julgamento da ação sobre o número exorbitante de cesarianas realizadas.

Foi lindo. Um passo ao lado, juntos, e não estaremos mais no mesmo lugar. Já demos muitos passos para mudar o que tem que ser mudado. E isso é só o começo.





  











marchando feliz. 



Arquivo pessoal. Clicks por: Cleber Silva, meu marido lindo e companheiro de aventuras.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

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"Mas posso ter ainda algum motivo para querer cair no vendaval
Eu sou assim, assim, assim
Você assim, assim... assim"



Eu sou toda ao contrário.
Sempre assumi esse meu lado e aprendi a lidar com com ele desde muito cedo. E é assim por um único e simples motivo: não consigo ser de outra forma. Parece discurso pronto, eu sei, mas aqui no meu caso é literal. Me sinto desconfortável, como se estivesse dentro de uma armadura que não me cabe (por ser grande ou pequena demais) e indo contra algum grande princípio interno misterioso.
Não, as coisas não são sempre do meu jeito, eu vivo em sociedade e não numa utopia infinita, sei que a banda não toca exatamente assim. Já tentei várias coisas, de vários jeitos, e justamente por já ter tentado sei que não são a minha praia. Aí eu tinha sempre duas opções: ou seguia em frente sofrendo e, algumas vezes, tendo uns sintomas psicossomáticos que me deixavam de cama (nos casos mais extremos), ou mandava tudo às favas e partia pra outra.
Ok, vamos à prática: na verdade sempre foram dos dois jeitos: a insistência no que não me cabia -> o sofrimento -> mandar às favas e partir pra próxima. A próxima era sempre algo que não me cabia, de novo, mas eu insistia que tinha que caber. O ciclo se repetia incansavelmente, parece que eu não aprendia. Era como se só fosse possível viver daquele jeito, eu que era a errada, a torta, não era possível que eu não conseguia seguir uma porradumaregra; daí tentava me enquadrar e me estrepava. Mas nunca obtinha um sucesso nisso. Nunca obtinha sucesso porque eu não conseguia achar um mínimo de felicidade ou satisfação no que eu fazia. E, pra mim, isso é essencial.
Chegou uma hora que eu cansei. Mandei às favas (com o empurrão inicial necessário dado pelo meu marido lindo e tão doido quanto eu) várias coisas de uma vez e decidi que me dedicaria ao que realmente me fizesse bem e fim de papo. Eu ainda ia ter que descobrir o que seria essa coisa, mas e daí, né?! Só detalhes, rs.
Tranquei duas faculdades, pedi demissão, voltei pra casa dos meus pais - não necessariamente nesta ordem e ao mesmo tempo.
Ia continuar pobre, sem residência própria, vivendo com menos, tendo que lidar com gente que não entendeu minha escolha e aprendendo diariamente (no estilo um dia de cada vez) a não me importar muito com isso.

Esse último aprendizado está em processo. E, algumas vezes, minha cabeça entra no modo antigo e tenho umas crises. Se querem saber a real, estou saindo de uma exatamente agora. Um coisa foi puxando outra e quando vi já estava bem enrolada e não conseguia sair. Foram dias bem difíceis. Entrei numa espécie de crise de identidade, pensando que as minhas escolhas estavam equivocadas, que sou toda errada, que não levo jeito é pra coisa nenhuma e que o melhor seria se eu não saísse nunca mais de casa. Ou do meu quarto. Ou da minha cama. Não conseguia pensar em uma mísera coisa pra fazer e, se possível, transformar em trabalho, tudo estava fora de foco; nem escrever estava dando certo - o que é sinal vermelho mesmo, porque escrever é a única coisa que eu sei fazer.

Mas voltando um pouquinho ali em cima, onde eu disse que ainda teria que descobrir algo para me dedicar.
Quando eu chutei o balde, lá no ano passado (depois de trancar a segunda facul, mais precisamente), eu disse pra mim mesma que ia me descobrir. Sem um projeto específico ou um plano traçado. Seria uma coisa minha, no meu tempo. Aí aconteceu uma coisa: eu mergulhei de vez no mundo da maternagem. Mas pra mim era como se fosse um hobby. Paralelo a isso eu fazia várias outras coisas: ia ao cinema sozinha, lia trocentos livros, saía com o marido, ia a shows com amigos, fazia novos amigos, escrevia aos montes, tentava fotografar (ou ser fotografada), fazia umas loucuras, tinha umas crises com o meu passado, tentava elaborar tudo, chorava, ria, dançava, fazia autoanálise. Resumindo, eu vivi o que achava que realmente me cabia. No final do ano ainda trabalhei. Mas sempre, inevitavelmente, eu estava lendo e pesquisando assuntos relacionados a parto, empoderamento, criação com apego, disciplina positiva, etc etc etc. Aliás, foi lendo um monte dessas coisas que me resolvi com coisas minhas que ainda estavam em aberto. Não tinha como negar que isso me fazia muito bem, eu realmente adoro esse mundo e tinha sido uma delícia me encontrar ali.

E aqui cabe dizer: eu sempre quis ser mãe. Sempre. Desde muito pequena. Brinquei de boneca até uns 11 anos, eu acho. Sempre, sempre, sempre me vi gestando, amamentando, cuidando, educando, e por aí vai. É um desejo muito forte. Na mesma moeda, temos o seguinte fato: eu nunca liguei pra carreira profissional. Isso eu descobri na prática, depois de todas as topadas que levei (e que citei lá no começo). Não me importo com status, com salário x no fim do mês, com planos e metas para subir de cargo, com ficar rica, nem ficar o dia inteiro no mesmo lugar, presa, sem poder sair. Porque pra mim pesava mais a "prisão" do que o dinheiro que entrava na minha conta (essa é uma discussão bem complexa, vou me limitar a isso, por enquanto; lembrando que não estou julgando ninguém, nem dizendo que dá pra pagar as contas com sonhos, mas realmente não vou entrar nisso agora).

Sem que eu me desse conta, fui me dedicando cada vez mais a aprender sobre tudo que eu ainda não sabia, sobre o que eu sentia e achava ser errado, descobrindo que errado mesmo é ir contra a nossa própria natureza. Tudo isso com leituras no mundo materno. Ser mãe era (é) o meu grande projeto e eu estava empenhada. Porque é assim, né?! Quando a gente gosta de verdade rola to-du-ma dedicação e uma alegria (e algum cansaço, é verdade - mas até isso muda de lugar na lista de prioridade quando a coisa em questão nos faz bem), mas a gente sempre quer mais. Aí eu engravidei e achei que finalmente poderia passar para a próxima fase: a prática. Tivemos que dar um pause nesta parte, porque né?!, vocês sabem... a experiência que eu ganhei primeiro foi outra, que eu nem queria, mas que talvez precisasse. E depois do luto, e depois de elaborar, e depois de voltar a ficar contente de novo... a crise chegou!

Comecei a pensar que eu deveria ter alguma ocupação fixa que não tivesse nada a ver com maternidade, que perdi tempo, que passei toda minha vida fazendo absolutamente nada, que tava dando tudo errado nessa joça de plano de viver do meu jeito... Tá, vou parar por aqui. Eu disse que foram dias difíceis. Não chegou a ser uma depressão, nem ficava chorando pelos cantos, mas essas ideias me acompanhavam em todo lugar e eu não conseguia me livrar delas (e quase larguei mão da maternidade agora pra tentar outras doideiras). Ainda não sei como consegui, na verdade. Acho que foi passando aos poucos - e também recobrei a sanidade depois de uma conversa noturna com marido.
O fato é que eu comecei a olhar pra fora e me culpar por não ter a grama tão verde quanto a do vizinho. Comecei a ouvir "conselho" de quem mal sabe da minha história. Quanto mais eu olhava, mais eu tentava achar uma solução baseada no que eu via, no que seria supostamente ideal, e menos eu olhava para o que realmente estava me afligindo e para as minhas particularidades. E então, depois que percebi a enrascada em que havia me metido, pude concluir, agora com mais essa experiência como exemplo: não dá para buscar lá fora as respostas que a gente só encontra dentro.

Eu sou muitas dentro do mesmo corpo. A maternidade é o meu maior projeto, mas não é o único. Quero ser mãe em tempo integral, mas não pra sempre. Ainda cabe fotografia, ainda cabe literatura, ainda cabe escrita, ainda cabe dança, ainda cabe viagem, ainda cabe arte, ainda cabe uma vida mais saudável e mais sustentável. Entre tantas outras coisas que compõem a minha vida e que ainda vão chegar e eu ainda nem sei. Eu escolhi me dedicar a maternidade (começando pela teoria) primeiro. Aprendo milhares de coisas que me agregam muito, diariamente, e vou seguir assim, ganhando meu tempo com isso. Consigo conciliar outras coisas? Sim, elas existem, mas são consequência e continuarão a ser até que eu decida mudar as coisas de lugar. Não perdi tempo me dedicando ao que me coloca em movimento. Inclusive, por estar muito bem resolvida neste meu lado tão importante, agora estou agregando outras marcas ao meu caminho, aos poucos, enquanto aquela tal de parte prática não chega. Só sei que continuarei as fazendo dançar juntas, ora mais uma, ora mais outra, talvez chegue o tempo em que seja todas juntas, mas cada uma com seu papel.

Tomei as rédeas da minha vida de volta pra mim. Para ser ao contrário, para ser torta e para ser feliz. Eu sou assim. Mesmo que não faça nenhum sentido, não tem problema. Eu quero é sentir.


Foto repetida. Arquivo pessoal.

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Quando você se pega pensando...

... "quer saber? Eu não preciso de médico X, Y ou Z me acompanhando. Nem me certificar de que terei a quantia necessária pra hospital + equipe. Nem fazer acompanhamento com o profissional que eu escolher desde ontem, pra garantir alguma coisa. Quer saber de novo? Talvez eu não precise de nada. Pode acontecer em qualquer lugar, e vai ser lindo. O negócio é comigo. Porque o trabalho será entre meu bebê e eu. E nós estaremos preparados."

É sinal de que está empoderada?

Porque é exatamente assim que me sinto!! \o/

Arquivo pessoal


(volto com um post completo sobre esse pensamento muito em breve, aguardem)

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A beleza do corpo feminino

Eu estava mesmo querendo falar sobre isso aqui, mas acabava deixando pra depois, ou esquecendo. Aí li esse texto lá no Vila Mamífera e simplesmente adorei. Então vai ser agora.

Esse assunto sempre chama a minha atenção. Corpo feminino. Beleza real x capas de revista photoshopadas - e a busca incessante de algumas mulheres por medidas e resultados que, ou chegam as custas de muito "sofrimento", ou nunca chegarão. E o que chama a minha atenção é justamente isso: por que não gostamos do nosso corpo como ele é? Por que é tão difícil romper a barreira do que é dito ideal e nos orgulharmos com o que vemos no espelho? A resposta é complexa, eu sei, não estou banalizando a coisa toda. Sei que, se por um lado algumas mulheres realmente só fazem certas coisas para serem (ou tentarem ser) as mais magras da turma, por outro, outras tantas tem suas próprias questões na cabeça e lutam para não sucumbirem diante de tanta demanda. A sociedade ainda é muito machista, ainda temos revistas e sites divulgando fotos, aos quatro cantos, que beleza é corpo magro, mas nem tanto, tem que ter curvas, sem celulite, sem estria, em cima de um salto 15, com a depilação em dias e o cabelo todo trabalhado no esticamento. Mulher acima do peso é desleixada; deixar a unha por fazer, então, nem se fala. (nota da autora: não estou falando de saúde, que isso não se discute; estou falando sobre gente achar que só é bonita quem é 'quinem' a moça da revista).

O que eu tenho a dizer sobre isso: não tenho um pingo de paciência! 
Deve existir, em algum lugar, mulheres que realmente são assim "de nascença", que se sentem ótimas sendo quem são. Mas não é a esmagadora maioria. Ou seja: pra mim, isso não é padrão de porra coisa nenhuma.

"O que é, afinal, um corpo bonito? Quem define o belo? Quem traça a linha entre a beleza e a feiúra?

Beleza verdadeira é beleza de gente de verdade. Gente que chora, ri, tropeça, se machuca e se recompõe. Gente que vê passar os dias, que luta, que se delicia. Gente que ama, que goza, que cresce e amadurece, que se olha no espelho e gosta de perceber em si cada marca deixada por tudo aquilo que se viveu."

É isso que nos diz Renata Penna, no texto que linkei acima. E sim, eu concordo com ela.

Falando de mim, agora.
Até onde eu me lembro, sempre gostei do meu corpo. Sempre fui magra, apesar de hoje não ser mais tanto, rs. Mas não, não estou querendo dizer que só me gosto por ser magra. Estou dizendo que sempre fui mais ou menos do mesmo jeito, apesar de comer um monte de besteiras e ser meio sedentária . É genética, eu acho. Quer dizer, antes eu era muito magra e só comia besteiras e era sedentária. Hoje eu tenho um corpo com mais curvas, me alimento bem melhor e faço algum exercício, ainda sem muita regularidade. Não é uma relação direta, aqui nesse meu caso, e só tô explicando pra ficar tudo esclarecido entre nós. Quase fui modelo, mas não segui carreira porque não tinha saco pra essa coisa de emagrecer pra viver, rs. Segui anônima, sem dinheiro, mas do meu jeito. Fui crescendo e meu corpo foi mudando. Em algum momento, há uns 4 anos atrás, mais ou menos, eu dei uma engordadinha básica - e acredito que era inchaço, causado por um anticoncepcional que eu tomava, porque foi só trocar que emagreci. O fato é que eu já não tenho o corpo de antes, o metabolismo vai mudando mesmo, mas eu o adoro assim como é. O que não quer dizer que eu não enxergue defeitos. Tenho um monte de celulites (na minha visão são milhões delas, por todos os lados, e é sempre com isso que fico encucada quando vou a praia, haha), algumas estrias e tem dias que me acho péssima. Todo mundo tem seus dias ruins, não é? Apesar disso, me sinto muito confortável dentro do meu corpo.

Tanto que já até registrei.
Ano passado eu voei até a Cidade Maravilhosa para participar do projeto do fotógrafo Jorge Bispo, o Apartamento 302. Ele fotografou mais de 100 mulheres anônimas, reais, do jeito que são, sem nenhum photoshop, nuas. Foi uma das melhores experiências que eu já tive, se querem saber. E é uma maravilha ver todas as fotos. Mulheres de todos os tipos, de todas as cores, de todos os tamanhos. Todas belas. Todas possíveis (e sim, estamos em processo de edição e o livro desse projeto chega no mês que vem!).

Assim como este projeto que participei, existem alguns que são dedicados às mães. Porque o nosso corpo muda muito depois de gerar outra pessoa, e algumas vezes é difícil aceitarmos que nada será como antes, inclusive o nosso corpo.
Mesmo tendo gestado por apenas 4 meses, senti na pele que uma gravidez nos transforma. No meu caso, não ficou impresso do lado de fora, aos olhos alheios, o tanto de coisa que mudou - mas de certo ficou impresso lá dentro. O fato é que eu me sinto diferente, como se estivesse maior. Não sei explicar muito bem. Fico pensando como é depois dos 9 meses. Com certeza vou querer participar de um projeto para mães também.
Entendo que para algumas é difícil ver beleza, assim de imediato. Porque volta naquilo que eu disse lá em cima: não é isso que vemos por aí, né?

O que eu quero saber, de verdade, é: por que buscamos, lá fora, um olhar que deveria vir de dentro? Por que não fazemos as pazes com a nossa autoestima e não valorizamos o que nos faz bem?

Acho que me sinto "maior" porque tenho mais histórias vividas. Eu me surpreendi muito positivamente com o poder do meu corpo e da natureza depois de tudo que passei. Não tem como eu não me gostar ainda mais depois disso - mesmo que, a princípio, venha um certo estranhamento.
E também faz parte do autoconhecimento. Eu sei de cada detalhe do meu corpo. Das marcas que carrego e do espaço que ainda há para novas histórias. Não quero me envergonhar de quem sou, ou desejar ser outra pessoa.

O bonito é o que nos diferencia, é o que temos de particular. Que graça tem parecer uma Barbie, de plastico, sem opções? Ruim seria se ainda tivéssemos a mesma cara desde os 13 anos, mas com a maturidade, o pensamento e o conhecimento que temos hoje. Já pensou nisso? Mudam os caminhos, as oportunidades, as ideias. Mudamos por dentro. Por que permanecer igual por fora?
Acho que eu se eu fosse fotógrafa, com certeza iria voltar o meu olhar para as mulheres, todas elas, jovens, velhas, solteiras, mães. Todas.
Por experiência própria, é muito gostoso se deixar fotografar de forma natural - com ou sem roupa, não estamos nesse tema ainda, rs. Gosto de ter esse ponto de vista sobre mim mesma, é muito bom. Quem sabe alguma hora dessas as coisas não mudam pra mim e eu me arrisque, não é? Não faço ideia. Mas enquanto isso, te faço o convite: permita-se amar você inteira. Por dentro e por fora. Se puder, registre. Busque aí dentro o que faz seus olhos brilharem. E depois me conta o que achou.


Eu, no Apartamento 302. Arquivo pessoal.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

'Complete a frase'

Oi, gente! Quanto carinho recebi no post passado, agradeço de coração mesmo! Pra mim é um assunto bem sério - e ainda pretendo escrever sobre isso, no momento mais oportuno - foi muito bom saber que não estou sozinha nesse mundão de meu Deus. Obrigada mesmo!

Então que a Morgana, aquela linda, me indicou pra participar de uma Tag. Nunca participei dessas coisas, e confesso que nem todas me atraem (#sousincera hahaha), mas a Morgana é sempre uma fofa e essa eu gostei mesmo, achei interessante as perguntas e tal. Enfim, vou responder \o/

As regras são:
- Colocar o link do blog que criou a tag: Segredos da Luma
- Colocar o link de quem indicou você: Dois corações cariocas (mais um!)

e tem a regra para indicar 6 blogs e avisar a cada um deles, mas não vou indicar ninguém, porque sou rebelde, hahaha.

Então vamos lá:

1 - O mundo seria mais feliz se essa crença de que o status, o consumo, o dinheiro são mais importantes do que o ser. Podemos ver hoje em diversos lugares: pessoas gastando todo seu tempo, reclamando a maior parte dele, para ter coisas (e as vezes achando que também podem ter pessoas). Quando, na verdade, precisamos de muito pouco material para viver. A felicidade é algo que vem de dentro de nós e se reflete no meio, não o contrário.

2 - Uma amizade verdadeira é realmente importante quando: existe confiança. Confiança para contar aquele segredo de infância. Pra dividir uma dor. Pra compartilhar aquela alegria repentina, as surpresas boas da vida e até o tédio. Confiança para se entregar mesmo, poder viver sem se preocupar em ter que se explicar para alguém.

3 - Paciência e tolerância são para mim: fundamentais. Eu costumava dizer que "a paciência é uma dádiva... que eu não tenho". Mas hoje eu sou muito mais calma do que antes, tanto comigo quanto com os outros - o que não significa que eu não me estresse algumas vezes, dependendo do quanto a pessoa me irritar, rs. Tolerância é essencial, principalmente com as ideias opostas às nossas - é preciso entender que existem tantas visões no mundo quanto pessoas, ou seja, muitas (muuuitas!) serão diferentes da nossa, mas caberá direitinho na vida do outro - e sim, há espaço suficiente para todas elas abaixo do céu.

4 - Algo que me irrita profundamente: gente que projeta no outro a própria verdade e as próprias expectativas. Querer que o outro - o filho, o marido, a amiga, a moça da novela - tome as mesmas atitudes que você supostamente tomaria, e soltar faíscas de raiva e praguejar por todos os lados quando isso não acontece. Sim, isso me irrita profundamente.

5 - Acho que pessoas mais humildes são iguais a todas as outras, com os mesmos direitos e deveres, ninguém é menos ou mais do que o outro - mas essa é minha visão de mundo, sei que na prática as coisas são bem diferentes.

6 - Uma qualidade indispensável nas pessoas: respeito. Cada pessoa é um mundo diferente - e dentro dele cabem todas as qualidades e defeitos que lhe apetecerem. Até os conceitos de qualidade e defeito podem variar de pessoa pra pessoa. Mas a partir do momento em que se tem respeito - a si, ao próximo e ao desconhecido -  as coisas ficam realmente mais fáceis de lidar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

um segredo

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu não gosto quando os adultos tratam as crianças como se elas não soubessem e não entendessem nada do que se passa ao seu redor. Não gosto quando falam mentiras pra elas. Não suporto quando riem com sarcasmo (e não porque acharam bonitinho ou algo assim) de suas frases ou atitudes. Não gosto quando as pessoas projetam nas crianças o que elas não foram. Não gosto quando decidem que tipo de futuro a criança vai ter, como se só houvesse uma única escolha. Não gosto quando as pessoas definem que sabem o que a criança está sentindo a partir dos seus achismos de que todas são iguais, e não por suas particularidades. Não gosto mesmo, de jeito nenhum. Não gosto que insistam em padronizá-las. Simplesmente não suporto quando falam que as crianças, desde bebês, têm que passar por coisas ruins e difíceis para aprender que o mundo não é bom. Poderia repetir essa última frase mais quinhentas vezes, apenas para frisar o quanto eu não a suporto. Não gosto quando enganam os pequenos, como se eles não percebessem o ato. Não gosto de gente que acha que criança é manipuladora. Não gosto de gente que acha que criança é bobo da corte pros adultos. Não gosto quando mentem pra elas. Sim, sei que já escrevi isso, mas estou repetindo, porque simplesmente não gosto quando mentem pra elas. Não gosto que batam nelas. Não gosto que ignorem seus sentimentos. Não gosto quando não dão ouvidos ao que dizem, porque acham que "é coisa de criança/ não entendem nada/ logo vai passar". Não gosto quando acham que as crianças não sentem tristeza ou mágoa ou raiva ou qualquer sentimento inerente ao ser humano. Não gosto quando percebem que elas estão tristes, mas acham que é algum tipo de frescura ou manha. Não gosto quando diminuem seu sentimento. Mais uma vez, não gosto de gente que não acredita no que as crianças dizem só porque acham que "elas não sabem o que falam".

Não gosto é só pra ilustrar. Eu tenho vontade de chorar quando vejo essas cenas se repetirem, dia após dia, para quase todos os lados que eu olho. Às vezes eu choro.
É difícil sentir uma coisa muito específica e dizerem que não, você está errado, não tá sentindo isso, é coisa da sua cabeça.
É muito difícil aprender desde cedo que não adianta falar certas coisas, porque não vão acreditar em você.
É muito difícil passar por situações que você não se sente preparado, mas determinaram que você está - e ainda ouvindo que é para o seu bem. E você não consegue entender como que "bem" pode vir de algo que te apavora sobremaneira.
É muito difícil chorar pensando em todas as coisas que você gostaria de falar, mas não consegue.
É difícil crescer sentindo medo.
É ainda mais difícil crescer acreditando que o que você sente é errado.
Alguma hora vai passar, dizem, você vai aprender. Mas não passa.

Você tem amor, você tem brinquedos, você tem uma família que te ama, e que você também ama, e alguns poucos amigos.
Mas ainda falta algo. Uma confiança, talvez. Você não sabe, ainda não descobriu o que é confiança.
Quando descobrir, vai perceber que mesmo dentro daquela casa grande, e tendo um quarto só seu, e tendo tido uma infância também feliz e com boas memórias, existe um sentimento que não orna com tudo aquilo. Um sentimento que só a pouco tempo você soube nomear, mas não tem coragem nem de falar, porque sabe que vão dizer, ainda hoje, você adulta, que não foi nada disso, você entendeu tudo errado. Talvez seja mesmo só coisa da sua cabeça. Mas talvez não.

E é ainda mais difícil, muito mais difícil, lembrar de tudo isso, ainda hoje, muitos anos depois, quando o seu inconsciente já deveria ter trabalhado para varrer tudo pra debaixo do tapete e te fazer esquecer. Talvez ficasse uma ou duas sequelas, sintomas e sinais de que ali aconteceu alguma coisa, mas você não se lembraria, e daria um jeito de conviver com tudo aquilo de alguma maneira, e estaria tudo bem.
É assim que acham que vai acontecer com todas as crianças. Que elas esquecem, não entendem, jamais vão se lembrar daquilo um dia. Realmente acontece com algumas, claro, não posso jamais dizer que não.
Mas chega aqui pertinho, deixa eu contar uma coisa pra vocês: o inconsciente de algumas crianças simplesmente esquecem de cumprir o seu papel com excelência, e essas pessoas crescem com uma consciência absurda de tudo que sentiram desde, sei lá, dois ou três anos de idade.
Chega mais pertinho, pra ninguém ouvir: muito prazer, eu sou essa criança.


imagem daqui

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sobre espaços e vazios

De certo ponto de vista, eu já superei o luto.
Por outro lado, parece que sempre tem alguma coisa pra eu falar sobre o que aconteceu, sobre o tempo em que eu estava grávida, ou qualquer coisa assim. E acaba que sempre menciono o assunto em algum texto ou conversando com alguém.
Eu não fico o dia inteiro falando ou pensando nisso, mas às vezes é inevitável.
Eu me esforço pensando em outros assuntos pra postar, mas nem sempre dá certo. 

Ontem foi um dia difícil - não o dia todo, teve momentos em que realmente estava bem, recebi boas notícias, vi coisas bonitas. Mas a dor de cabeça não se limitou a ser apenas aviso de início de ciclo e resolveu ficar por mais uns dias. Foi difícil. À noite, eu estava bem sensível e ainda dei de cara (na internet) com uma amiga do Cleber perguntando sobre o sexo do bebê. Pois é, parece que nem todo mundo sabe ainda. E eu chorei. Ele chegou em casa e me encontrou aqui no quarto sozinha, eu não queria contato com o mundo. 
Mas enfim, ele me abraçou, me distraiu, comi brigadeiro de panela às 22:00 e tudo certo.
Depois, já bem, fiquei pensando e até disse pra ele: parece que foi tudo um sonho, que não aconteceu de verdade.

Mas aconteceu, né? Eu passei por tudo isso. Eu tenho essa carga agora, que insisto em enxergar por um ótica diferente, pra ver se fica mais leve. Mas a verdade é que não é nada leve. Sempre vai existir o espaço que a bolota ocupou no meu corpo, na minha vida. Era tudo muito forte. E em alguns aspectos eu me sinto mesmo diferente. 
Sim, já é um capítulo passado agora. Não fico me lamentando, pensando que podia ter sido de outro jeito. Foi do jeito que tinha que ser, já entendi. A dor não vem mais como vinha antes. Essa é a parte que está "superada".
Mas existe um vazio. E não, ele não vai ser preenchido por ninguém. As lembranças já moram nele, ele já é preenchido. É o espaço do que passou, é onde eu guardo os sentimentos que eram da bolota (olhando desse ponto de vista, nem é tão vazio assim, visto que são muitos sentimentos, mas enfim); porque tem que existir esse lugar mesmo. Durante a gestação a gente vai estabelecendo uma relação com aquele serzinho, destinando sentimentos, criando vínculo e, de repente, da noite pro dia, não existe mais a relação, agora é só você de novo, pra onde vai tanto sentimento, joga fora? Não dá pra esquecer, também não dá pra vivê-los, então eu guardei nesse lugar.
Só que pela primeira vez eu "entendi" aquela frase: "calma, daqui a pouco vem outro bebê". Claro que nenhum filho vem para suprir o perdido, isso não existe; não existe voltar lá no passado e fazer uma troca. Em um nível bem diferente do real, eu já me sinto meio mãe. Mas me peguei pensando que terei, com o próximo, a construção de novas memórias, de novas coisas pra contar, de novos sentimentos pra sentir. E a grandeza de um filho aqui do lado de fora da barriga é infinitamente maior, no quesito experiência e intensidade de sentimentos, eu imagino. Vai ser mesmo real. Entendem? Ainda vai ter saudade, mas ela não estará mais sozinha, reinando absoluta na minha vida. Novos espaços serão construídos e preenchidos por seus devidos donos. 

Pode ser que seja isso, ou pode ser que eu esteja tentando enxergar as coisas por um lado mais suave de novo. Não sei, só o tempo poderá dizer. 
Até lá eu vou distribuindo essa carga em letras e outras coisas mais, e tentando pensar em novos assuntos para conversamos aqui.

não sei quem é o autor desta linda imagem; se alguém souber, me avisa que coloco aqui os créditos.