quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sobre espaços e vazios

De certo ponto de vista, eu já superei o luto.
Por outro lado, parece que sempre tem alguma coisa pra eu falar sobre o que aconteceu, sobre o tempo em que eu estava grávida, ou qualquer coisa assim. E acaba que sempre menciono o assunto em algum texto ou conversando com alguém.
Eu não fico o dia inteiro falando ou pensando nisso, mas às vezes é inevitável.
Eu me esforço pensando em outros assuntos pra postar, mas nem sempre dá certo. 

Ontem foi um dia difícil - não o dia todo, teve momentos em que realmente estava bem, recebi boas notícias, vi coisas bonitas. Mas a dor de cabeça não se limitou a ser apenas aviso de início de ciclo e resolveu ficar por mais uns dias. Foi difícil. À noite, eu estava bem sensível e ainda dei de cara (na internet) com uma amiga do Cleber perguntando sobre o sexo do bebê. Pois é, parece que nem todo mundo sabe ainda. E eu chorei. Ele chegou em casa e me encontrou aqui no quarto sozinha, eu não queria contato com o mundo. 
Mas enfim, ele me abraçou, me distraiu, comi brigadeiro de panela às 22:00 e tudo certo.
Depois, já bem, fiquei pensando e até disse pra ele: parece que foi tudo um sonho, que não aconteceu de verdade.

Mas aconteceu, né? Eu passei por tudo isso. Eu tenho essa carga agora, que insisto em enxergar por um ótica diferente, pra ver se fica mais leve. Mas a verdade é que não é nada leve. Sempre vai existir o espaço que a bolota ocupou no meu corpo, na minha vida. Era tudo muito forte. E em alguns aspectos eu me sinto mesmo diferente. 
Sim, já é um capítulo passado agora. Não fico me lamentando, pensando que podia ter sido de outro jeito. Foi do jeito que tinha que ser, já entendi. A dor não vem mais como vinha antes. Essa é a parte que está "superada".
Mas existe um vazio. E não, ele não vai ser preenchido por ninguém. As lembranças já moram nele, ele já é preenchido. É o espaço do que passou, é onde eu guardo os sentimentos que eram da bolota (olhando desse ponto de vista, nem é tão vazio assim, visto que são muitos sentimentos, mas enfim); porque tem que existir esse lugar mesmo. Durante a gestação a gente vai estabelecendo uma relação com aquele serzinho, destinando sentimentos, criando vínculo e, de repente, da noite pro dia, não existe mais a relação, agora é só você de novo, pra onde vai tanto sentimento, joga fora? Não dá pra esquecer, também não dá pra vivê-los, então eu guardei nesse lugar.
Só que pela primeira vez eu "entendi" aquela frase: "calma, daqui a pouco vem outro bebê". Claro que nenhum filho vem para suprir o perdido, isso não existe; não existe voltar lá no passado e fazer uma troca. Em um nível bem diferente do real, eu já me sinto meio mãe. Mas me peguei pensando que terei, com o próximo, a construção de novas memórias, de novas coisas pra contar, de novos sentimentos pra sentir. E a grandeza de um filho aqui do lado de fora da barriga é infinitamente maior, no quesito experiência e intensidade de sentimentos, eu imagino. Vai ser mesmo real. Entendem? Ainda vai ter saudade, mas ela não estará mais sozinha, reinando absoluta na minha vida. Novos espaços serão construídos e preenchidos por seus devidos donos. 

Pode ser que seja isso, ou pode ser que eu esteja tentando enxergar as coisas por um lado mais suave de novo. Não sei, só o tempo poderá dizer. 
Até lá eu vou distribuindo essa carga em letras e outras coisas mais, e tentando pensar em novos assuntos para conversamos aqui.

não sei quem é o autor desta linda imagem; se alguém souber, me avisa que coloco aqui os créditos.

15 comentários:

  1. Mari, tbm não suportava esta frase, poxa parece que o filho que perdemos foi o ônibus que passou antes da hora, e que logo vem outro, virá sim, como o meu acabou de chegar, mas nada tira as lembranças do primeiro, procurei um motivo para entender e o que me acalmou foi pensar que sou privilegiada que sou mãe de um anjo que precisava de amor e eu dei e estou dando todo o que eu tenho, e que graças a isto, agora eu poderei dar vida a um bebê que será o irmão caçula do meu anjinho, este bebê saberá sim que ele tem um irmão lá em cima que cuida da gente... isto acalmou o meu coração... e agora eu sei que tudo será diferente. Vai ser assim com vc tbm.

    Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. haha adorei "o ônibus que passou fora de hora"
      Sim, Suzana, também me sinto privilegiada por ter carregado minha bolota por 4 meses e ter dado muito amor.

      Aliás, parabéns pela gestação! Muita saúde e muito amor pra você, viu?

      Daqui a pouco chega minha vez de novo, rs

      Beijo beijo!

      Excluir
  2. É isso, Má! O espaço da bolota é da bolota e ponto! Com todos os sentimentos, amores saudades e aprendizados que ela dividiu com vc!
    O vazio vai continuar por aí, é verdade... mas a sorte é que esse coração que não suporta o pouco tem um montão de espaço pra acomodar tudo de novo que vem depois - seja com um novo bebê ou com outras novas experiências da vida!
    e, sim, com um novo bebê, mais "real", vem um mundo de outras coisas pra te preencher inteirinha!! =)
    Beijo e fique bem!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ai, Gabi, muito obrigada pelas palavras, viu?
      o coração tem um montão de espaço mesmo, e logo estará ainda mais preenchido de novidades.

      Beijo grande!

      Excluir
  3. Sabe.. isso aconteceu comigo tbm e acredite que.. eu sei o que vc está sentindo.
    A frase "calma que já vem outro bebê" era bem irritante para mim tbm, Eu pensava "CARAMBA !! NÃO QUERO OUTRO ! QUERO ESTEEEE !!!" mas hoje esta "calma" está fazendo mais sentido. Não que um substitui o outro, mas a "calma" surge quando uma pessoinha agora faz parte da sua vida (do lado de fora) para sempre.
    Esta dor estava no meu coração e achei que fosse para sempre, mas ela vai desaparecendo aos poucos até virar uma cicatriz, que sempre estará lá, mas a dor vai sumindo aos poucos.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Mariani, obrigado mesmo pelo comentário, é sempre bom ouvir quem já passou por isso também.
      E espero que vire mesmo só uma cicatriz e que a dor fique mais distante.

      Beijão!

      Excluir
  4. É exatamente isso...desse jeitinho.
    São novas experiências, novas memórias, mas nada apaga o que já foi, o que muda é como nós lidamos com a dor...
    Por muito tempo passei por isso de ver tudo como só um pesadelo, era mais fácil assim do que saber que carregarei essa carga o resto da vida...mas o mais fácil geralmente não é o certo.
    E sobre os espaços vazios, acho que não estão vazios só estão faltando alguma coisa.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. É, Mari, nem sempre o mais fácil é o certo mesmo, você tá certa.
      Ainda bem que existe novos jeitos de enxergar tudo, né?!
      Obrigada pela força sempre :)

      Beijo beijo!

      Excluir
  5. Má, realmente: é um ciclo! Nenhum outro bebê ocupará o espaço/amor que a bolota teve na sua vida e do Cleber! Quando eu fui na primeira consulta dom o Dr. Jorge Kuhn, ele me disse: " a gravidez é um eterno risco, até o nascimento. Não existe essa de 'tudo bem' ". Eu acredito muito nisso e acho que é até por conta desse sentimento que ainda não me conectei com o Thomas, como talvez devesse. Ele é minha barriga, não sinto ainda que ele é um bebê, meu filho, porra. Parece surreal.
    Ainda é muito recente, você vai passar por um período de luto mesmo, mas com muito brigadeiro de colher e colo do Cleber para superar! :-D
    bjoks
    Carol

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nossa, Carol, agora eu super entendo quando você fala da (não) conexão com o ParasiThomas, vi de um outro ângulo agora (apesar de não ter um certo e errado, cada uma é uma, mas esse seu ponto de vista realmente adorei). É surreal MESMO essa coisa de outra pessoa dentro de nós, até tentei elaborar isso na época, mas o risco é eminente sempre, né? O dr. Kuhn é mesmo muito bom :)

      e que bom que temos brigadeiro, colo de marido e apoio dazamiga ;)

      Beijo beijo!

      Excluir
  6. Oláá.. conheço seu blog a pouco mas ja estou devorando tudo! Tudo está nos planos de Deus.. nem sempre fica claro o porquê das coisas acontecerem desse jeito, cabe a nós aceitar.. e tirar o aprendizado de tudo isso.. sua bolota tem o lugarzinho dela.. que nada mais vai tirar.. Prepare o coração para um segundo filho.. pensando assim.. vai ter a consciência tranquila de não estar confundindo nada.. Beijos

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Leda, seja bem-vinda!!
      Obrigada pelas palavras, querida! É bem isso que venho tentando fazer, aceitando que não podemos entender tudo e começando a preparar o coração para a próxima vez.

      volte sempre! :D

      Beijo beijo!

      Excluir
  7. ô Marina, minha admiração como sempre!

    Acho que tudo tem um tempo certo, o tempo de Bolota foi um e agora virá um bebê que será diferente e vai te trazer sentimentos diferentes, mas sem nunca esquecer tudo que passou com Bolota.

    To torcendo tanto por vocês hehe
    Beijoooooo

    ResponderExcluir
  8. Má, o que eu posso te dizer é: fale do que vc quiser e precisar, quando quiser e precisar. Estaremos aqui pra te ouvir. :D
    E que seu coração deseje sempre o muito.
    Bjo.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário e faça uma família feliz :)