quinta-feira, 3 de outubro de 2013

um segredo

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu não gosto quando os adultos tratam as crianças como se elas não soubessem e não entendessem nada do que se passa ao seu redor. Não gosto quando falam mentiras pra elas. Não suporto quando riem com sarcasmo (e não porque acharam bonitinho ou algo assim) de suas frases ou atitudes. Não gosto quando as pessoas projetam nas crianças o que elas não foram. Não gosto quando decidem que tipo de futuro a criança vai ter, como se só houvesse uma única escolha. Não gosto quando as pessoas definem que sabem o que a criança está sentindo a partir dos seus achismos de que todas são iguais, e não por suas particularidades. Não gosto mesmo, de jeito nenhum. Não gosto que insistam em padronizá-las. Simplesmente não suporto quando falam que as crianças, desde bebês, têm que passar por coisas ruins e difíceis para aprender que o mundo não é bom. Poderia repetir essa última frase mais quinhentas vezes, apenas para frisar o quanto eu não a suporto. Não gosto quando enganam os pequenos, como se eles não percebessem o ato. Não gosto de gente que acha que criança é manipuladora. Não gosto de gente que acha que criança é bobo da corte pros adultos. Não gosto quando mentem pra elas. Sim, sei que já escrevi isso, mas estou repetindo, porque simplesmente não gosto quando mentem pra elas. Não gosto que batam nelas. Não gosto que ignorem seus sentimentos. Não gosto quando não dão ouvidos ao que dizem, porque acham que "é coisa de criança/ não entendem nada/ logo vai passar". Não gosto quando acham que as crianças não sentem tristeza ou mágoa ou raiva ou qualquer sentimento inerente ao ser humano. Não gosto quando percebem que elas estão tristes, mas acham que é algum tipo de frescura ou manha. Não gosto quando diminuem seu sentimento. Mais uma vez, não gosto de gente que não acredita no que as crianças dizem só porque acham que "elas não sabem o que falam".

Não gosto é só pra ilustrar. Eu tenho vontade de chorar quando vejo essas cenas se repetirem, dia após dia, para quase todos os lados que eu olho. Às vezes eu choro.
É difícil sentir uma coisa muito específica e dizerem que não, você está errado, não tá sentindo isso, é coisa da sua cabeça.
É muito difícil aprender desde cedo que não adianta falar certas coisas, porque não vão acreditar em você.
É muito difícil passar por situações que você não se sente preparado, mas determinaram que você está - e ainda ouvindo que é para o seu bem. E você não consegue entender como que "bem" pode vir de algo que te apavora sobremaneira.
É muito difícil chorar pensando em todas as coisas que você gostaria de falar, mas não consegue.
É difícil crescer sentindo medo.
É ainda mais difícil crescer acreditando que o que você sente é errado.
Alguma hora vai passar, dizem, você vai aprender. Mas não passa.

Você tem amor, você tem brinquedos, você tem uma família que te ama, e que você também ama, e alguns poucos amigos.
Mas ainda falta algo. Uma confiança, talvez. Você não sabe, ainda não descobriu o que é confiança.
Quando descobrir, vai perceber que mesmo dentro daquela casa grande, e tendo um quarto só seu, e tendo tido uma infância também feliz e com boas memórias, existe um sentimento que não orna com tudo aquilo. Um sentimento que só a pouco tempo você soube nomear, mas não tem coragem nem de falar, porque sabe que vão dizer, ainda hoje, você adulta, que não foi nada disso, você entendeu tudo errado. Talvez seja mesmo só coisa da sua cabeça. Mas talvez não.

E é ainda mais difícil, muito mais difícil, lembrar de tudo isso, ainda hoje, muitos anos depois, quando o seu inconsciente já deveria ter trabalhado para varrer tudo pra debaixo do tapete e te fazer esquecer. Talvez ficasse uma ou duas sequelas, sintomas e sinais de que ali aconteceu alguma coisa, mas você não se lembraria, e daria um jeito de conviver com tudo aquilo de alguma maneira, e estaria tudo bem.
É assim que acham que vai acontecer com todas as crianças. Que elas esquecem, não entendem, jamais vão se lembrar daquilo um dia. Realmente acontece com algumas, claro, não posso jamais dizer que não.
Mas chega aqui pertinho, deixa eu contar uma coisa pra vocês: o inconsciente de algumas crianças simplesmente esquecem de cumprir o seu papel com excelência, e essas pessoas crescem com uma consciência absurda de tudo que sentiram desde, sei lá, dois ou três anos de idade.
Chega mais pertinho, pra ninguém ouvir: muito prazer, eu sou essa criança.


imagem daqui

26 comentários:

  1. Simplesmente perfeito.

    Não consigo dizer mais nada. Perfeito!
    bjoks
    Carol

    www.meuparasita.com

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    1. Oun, Carol, obrigado, viu?
      me custou um pouco de coragem escrever esse texto, esse assunto mexe muito comigo ainda.
      Obrigado mesmo.

      Beijão!

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  2. Perfeito. Não gosto de tudo o que você falou no primeiro parágrafo. E procuro sempre me lembrar disso na educação do Bernardo. Me irrito com as "mentirinhas" que gostam de contar para as crianças. Por exemplo (um exemplo "bobo", alguns diriam): desde bebê, quando o deixo na casa de uma das avós para fazer algo na rua, alguém me sugere "sair de fininho" para ele não perceber e chorar, ou falar que "a mamãe vai ao banheiro" para então eu sumir. Na-na-ni-na-não. Verdade sempre em primeiro lugar, quero que meu filho possa confiar inteiramente em mim, sua mãe. Eu olho bem nos olhinhos dele e falo: "a mamãe precisa sair, vou ao banco/médico/etc., mas depois de um tempo eu volto, ok? você vai ficar aqui com a vovó, e vai ficar tudo bem." Mas já me estressei bastante com os familiares por causa dessas coisas... Até que, finalmente, eles aprenderam a respeitar o meu modo de educar. Beijos

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    1. É exatamente isso, Pati. Dessas pequenas mentirinhas mesmo que eu também quis dizer. Aliás, tenho memórias péssimas exatamente desse exemplo que você citou. E justamente por acharem "bobo" fazem com muita frequência e não estão nem aí pros sentimentos dos pequenos, né? Como se a gente só começasse a sentir certas coisas a partir de certa idade.
      Muito bom acompanhar daqui a educação que você dedica ao Bernardo, também por isso :))

      Obrigada pelo carinho!
      Beijo beijo!

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    1. Cacau, querida! Obrigada mesmo, de novo, viu? ^^

      Beijo grande!

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  4. Maravilhoso, e praticamente um relato externo do que sinto aqui dentro.. principalmente agora que carrego um serzinho aqui.. muito sincero e inspirador..
    beijo!

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    1. a coisa toda ganha um peso diferente quando eles estão dentro de nós, né Leda?
      Eu sempre reflito sobre isso. Obrigada pelo carinho!

      Beijinho!

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  5. Eita, Mari! Sabe que expôs não só a sua criança né? Não tem como ler isso e não fazer uma viagem no tempo. Então eu desejaria que o mundo inteiro lesse isso! E refletisse sobre isso! E passasse a ter o mínimo de conexão com a criança que já foi e o mínimo de empatia com qualquer criança na sua frente. Lindo texto. Lindo.

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    1. A gente sempre acha que "isso só acontece comigo", hahaha
      esse texto veio como um grande desabafo mesmo, sabe? quando vi já tava acabando, escrevi tudo de uma vez. De repente várias pessoas me dizendo que tb sentem isso. Não é o ideal, claro, mas é meio reconfortante, digamos assim.
      Ainda quero abordar mais esse assunto depois (vc sabe que eu sou assim, né?! ;) )

      Valeu mesmo pelas palavras!

      Beijo grande!

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  6. Prazer, eu sou essa criança também.
    Tem muuitas coisas que eu gostaria de falar pros meus pais, parentes, pessoas que estiveram comigo quando criança, que me fizeram algum "mal"..mas, simplesmente, não tem como. Algumas coisas já falei, mas é sempre aquilo "ahhh, para de bobagem, tu nunca vai esquecer isso? essa mágoa vai te fazer mal hein" e levado para o sarcasmo. Isso me dói, isso me irrita. Até hoje ainda me tratam como criança em alguns sentidos e isso me irrita, porque eu não sou mais criança e mesmo que fosse, não seria para se tratada assim.

    Esse texto mexeu comigo mesmo. Me veio tantas coisas na cabeça...tanta coisa que eu queria esquecer, mas não dá. Quem sabe um dia eu consigo falar tuuudo que tem aqui dentro né?

    E tu é demais, nos faz sentir coisas tão fortes, lendo teu texto.
    E espero que com toda reflexão, possamos ser melhores para nossas crianças e as tratarmos como pessoas, com todo respeito que merecem.

    Parabéns, TU É DEMAIS!

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    1. Ni, me dá aqui um abraço, querida!
      Somos tão parecidas em tantas coisas, não é?
      também já tentei falar, mas não adianta meeesmo. Porque pra eles não foi um erro, foi a forma cera de criar. É bem complicado tudo isso, mas a gente supera, né? ou não, haushaushausha

      Obrigada meeesmo pelas palavras!
      Beijo grande!

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  7. É, acho que sou esta criança também. Incrível como podem pais e pessoas próximas à criança moldarem para o futuro sentimentos de medo, frustração e insegurança.
    Espero fazer diferente e espero que o meu diferente seja bom para minha pequena.

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    1. Eu fico pensando muito nisso também, Opi! Que o meu fazer diferente seja bom para os meus filhos. É uma baita responsa, né! Farei de tudo par não moldar esses sentimentos ruins neles, espero que dê certo, rs.

      Beijo beijo!

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  8. Nao tem como nao se identificar com esse texto, lindo e sensível! Se mais gente pensasse como a gente, tenho certeza que o mundo seria um lugar bem melhor! Bjo!

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    1. Eei, Lais, que legal você aqui no meu puxadinho materno! hehe
      Muito obrigada pelas palavras!

      Beijo beijo!

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  9. (Ei Marina, está rolando uma postagem coletiva sobre amizades, mundo, vida... e te marquei em uma tag lá no blog para participar também! (: adoro seus textos e tenho certeza que serão ótimas suas respostas)

    Que texto lindo, mulher!
    Você escreve muito bem! Concordo com tudo isso e mais um pouco!
    Agora que escolhi que meu filho terá um quarto montessoriano, de forma a respeitar sua individualidade e estimular a independência, as pessoas falam absurdos sobre bebê não entender nada, que é tudo bobeira... Enfim, tratam um cachorro, ou outro animalzinho (não que não mereçam) com mais respeito do que as crianças! É simplesmente chocante!
    Fico contente de ver tantos comentários aqui no seu post falando que concordam com o que você disse. Dá um aliviozinho de saber que a humanidade nao está perdida! rs

    Super beijos

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    1. Morgana, muito muito obrigada mesmo pelo carinho!

      É muito chocante mesmo, também ouvia coisas assim quando tava grávida, e vou ouvir muito mais da próxima vez. Mas tô nem aí pro povo, deixa eles falando enquanto nós fazemos, haha

      Beijo beijo!

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  10. Olá Marina ... eu cresci assim infelizmente e hoje tento fazer diferente com minha filha. Tb odeio isso, pois lembro que ficava irritada de me subestimarem ...

    estamos lhe seguindo, nos visite, curta e siga tb ... vamos amar!

    Tem post novo .. passa lá! Beijinhosss...

    Roberta & Luma
    http://princesaluma.blogspot.com.br/
    http://motivosparaestareserfeliz.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Roberta! Sempre temos a oportunidade de fazer diferente, né? Acho isso ótimo :D

      Obrigada pela visita!

      Beijo beijo!

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  11. Olá é minha primeira vez por aqui... adorei o blog.
    Pois é eu também não gosto de mentiras para crianças e nem de achar que elas não entendem, que entendem sim!c
    Eu já converso com meu filho desde que estava na minha barriga e pretendo sempre quando ele crescer mais um pouco explicar as coisas para ele. Várias vezes, de varias formas até ele entender... porque eles entendem sim.
    Abraço.

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    1. Um xará pra mim, hehe

      Sim, claro que eles entendem tudo - nós é que temos dificuldade de entender o que eles nos dizem, muitas vezes, não é? rsrs As crianças são muito sábias, sempre acreditei nisso.
      Muito bom saber que você conversa e respeita seu filho! :)

      Seja bem-vinda, viu?

      Beijo!

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  12. Tocante, comovente eu diria!!! Me vi aí tb... PERFEITO este texto...Parabéns pela coragem!!!
    CONCORDO COM TUDO.

    http://meupequenoreidavi.blogspot.com.br/

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    1. Marcela, muito obrigada mesmo pelas palavras!
      Tive um receio antes de escrever esse post, mas com o retorno que tive, valeu muito a pena pra mim ^^

      Beijo beijo!

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  13. Um coração bem grande pra ti, Mari! Que coisa emocionante!
    Pra mim, como mãe agora, ler isso é saber que cada carinho na minha filha não é em vão, que cada vez que eu não a deixo chorando até dormir vai fazê-la uma criança muito mais feliz, que ela me escuta e me entende desde sempre e que percebe mais do que somos capazes de traduzir. Obrigada por me lembrar desse papel e do impacto que cada gesto nosso tem nesses seres e em quem eles serão no futuro. Obrigada por tirar isso do fundinho da sua alma pra abrir as nossas cabeças. <3

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    1. Ai, Romana, que lindo seu comentário!
      Obrigada você, pelo carinho sempre!

      Beijo grande!

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