sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O não saber

Eu queria descobrir a próxima gestação só com umas 20 semanas. Não que se tiver de acontecer alguma coisa ruim (bate na madeira 50 vezes) será antes disso, mas perece que a marca das 17 semanas não me larga, por mais que eu procure não pensar nisso, por mais que eu nem tenha um positivo em mãos ainda.
Eu queria que alguém me garantisse que daria tudo certo da próxima vez.

Em contrapartida, eu gosto do não saber. Pois é só dessa forma que posso me entregar. É chato saber exatamente o que, quando, como e porquê as coisas acontecem, pelo menos eu acho. O não saber permite que eu me conecte mais comigo mesma (ou tente, pelo menos), que eu tente entender de onde vem esse tanto de vozes, quais estão vindo do instinto, do coração, e quais aparecem para me confundir, ou, mais provavelmente, autoenganar por medo do sofrimento.

Seria bom ter pelo menos uma garantia, por menor que fosse? Seria lindo, seria demais, seria tudo! Mas não tenho. Não existe garantia. Tudo pode acontecer, o tempo todo, com todo mundo. Não que estejamos todos condenados. Mas também não estamos imunes.

Penso que tudo isso pode ser só o prenúncio do que é a vida com filhos. Não estou falando de fatalidades aqui, não sou tão pessimista, muito pelo contrário, vivo vendo o lado bom das coisas. Mas também não dá pra pensar que só dentro da barriga coisas ruins acontecem (que é o meu atual medo). Não é o lugar mais seguro? Quando querem proteger do mundo, algumas mães dizem que queriam que os filhos voltassem pra barriga. Então também não posso pensar: nasceu, cabô. Não dá pra pensar que aqui fora as coisas serão tão diferentes assim. Acho que o medo não vai nos abandonar. O medo da febre, o medo da convulsão, o medo da gripe virar outra coisa mais séria. O medo de não comer e ficar doente. O medo de comer demais e ficar doente. O medo de machucar. O medo de não saber entender o choro. O medo de deixar cair. O medo de fazer mal mesmo tendo certeza que está fazendo o bem. Medo do desconhecido.

A questão, penso, não é a garantia ou não, o medo grande ou não. A questão é seguir em frente dando o nosso melhor. Sempre. A minha vontade de ter um filho é infinitamente maior do que o medo que sinto, não tem nem medida de comparação. Hoje eu sinto medo, claro, porque passei por um baque grande, porque "eu nunca pensei que uma coisa dessa fosse acontecer comigo", e aconteceu, porque temo que aconteça novamente. Mas não dá pra parar a vida. Não dá pra deixar que isso me conduza. Assim como não dá pra evitar que o bebê chore, só pelo receio de não saber interpretar, ou que ele tenha qualquer outra experiência, só por um sentimento que nos paralisa. É simplesmente incoerente e sem nenhum sentido. Simplesmente não dá. Os dias continuam a passar, coisas continuam a acontecer. Não é o meu medo que protegerá a minha gestação e, depois, a integridade física e psicológica do meu filho. Eu não acredito nisso. Haverá cuidados, haverá amor, haverá afeto. Todo do mundo que eu puder dar.

Eu amei a bolota desde sempre, me conectei com ela de uma forma ímpar, e isso não impediu que ela se fosse. E eu não me arrependo de ter me entregado daquela maneira. Sei que é meio pesado afirmar isso, mas estou escrevendo pra mim mesma, para que eu enxergue esse fato e acalme meu coração. Sessão de autoanálise aberta, é isso que esse texto é pra mim. Prosseguindo. Eu não me arrependo e não vou fazer diferente da próxima vez. Eu acredito no amor, acredito na conexão, acredito nos instintos e no que sinto. Nos últimos dias, confesso, tentei fugir disso. Tentei não me conectar, tentei não ouvir, não falar e muito menos ver. Por medo de quebrar a cara de novo. Mas me diz, e se eu quebrar? Vai valer alguma coisa ter demandado tanta energia para tentar ser o que não sou? Não. Também tive medo de estar errada quanto ao que eu senti esses dias (porque foi assim: quanto mais tentei me fazer de desentendida, mais escancarado ficava). Mas eu preciso entender que eu não estava errada da outra vez. Ela existiu de verdade e todo amor que dedicamos à ela foi real e também necessário. O amor, a entrega, a conexão saudáveis e naturais nunca serão ruins ou prejudiciais. O medo, sim. Sei que o medo também é instinto de sobrevivência, mas nesse meu caso, não. Me escondi atrás dele, o usei como escudo. Mas foi só pra ver que não funciona pra mim. Eu preciso me entregar. Para tudo que está por vir, para a vida que, sinto, vai chegar, na hora que tiver que chegar. Acho que a palavra do momento é: confiar. Confiar que meu instinto está funcionando direitinho. Que se ele falhar haverá tempo para buscar outras alternativas. Que estou minimamente preparada (nunca estamos completamente, nem quero estar, porque é na caminhada que as coisas acontecem, e não antes de começar) para o que tiver de ser.

Preciso confiar que vou conseguir e continuar andando ao lado do não saber. Ele me acompanhará por longos anos, precisamos saber respeitar um ao outro; parada é que não dá pra ficar. Mesmo porque o estar parado é uma ilusão. Ou a gente vai pelas próprias pernas, ou somos levados pela correnteza. Eu prefiro ir, detesto receber ordens. Não há garantias. Há vida. Há mais.

foto totalmente desconfigurada, (pelo Blogger, porque no meu computador tá normal), na verdade a cor dela é diferente e está parecendo estragada, desculpem por isso. Mas é ela que eu quero aqui, pra me lembrar de fechar os olhos, respirar, e ir. 

9 comentários:

  1. So Deus pode nos dar essa garantia, na vida infelizmente estamos sujeitos a tudo o jeito e confiar e seguir em frente no nosso propósito um bj

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  2. Marina, Marina, Marina....
    O dom da palavra você tem sem dúvidas...e parece que escreve pra mim...já disse isso e não me canso de repetir. Vi todos os meus pensamentos quando li "eu nunca pensei que uma coisa dessa fosse acontecer comigo"...porque essas coisas acontecem só com os outros, na casa dos outros, na família dos outros, na vida dos outros...
    O medo que você sente da semana de número 17, eu sinto das de número 38 e 39...e vim sentindo desde o positivo e vou sentir até tê-lo nos braços e outros viram depois, como você disse...vai ter que ser com emoção pro resto da vida e em todas as outras gestações. Mas, não é só com a gente...toda mãe tem seus medos, seus receios...é só parte do processo....

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  3. Má, eu acho que a frase do texto é essa: "Não existe garantia. Tudo pode acontecer, o tempo todo, com todo mundo. Não que estejamos todos condenados. Mas também não estamos imunes."
    Pra mim, acreditar nisso me dá uma liberdade inacreditável! Não há nada que possamos fazer para evitar certas coisas. E daí vem o meu lema: "o que não tem remédio, remediado está". Com bastante ênfase de que o que não tem remédio, é o que não podemos corrigir mesmo que façamos o nosso melhor, como vc bem disse no texto.
    Então sigamos, fazendo o nosso melhor, da nossa forma, e aceitando de coração aberto tudo o que nos for oferecido pelo universo. Somos tão parecidas nisso! De aceitar o pacote completo da vida, com suas alegria e suas tristezas. Acho que o que temos de mais diferente é que você pode contar com seu instinto, e isso é maravilhoso. Enquanto isso, eu preciso seguir com o meu racionalismo, com o meu cabeção. Mas trilhamos o mesmo caminho de VIVER!

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  4. Pois é, Má...tb descobri cedo no caminho da maternidade que o medo será nosso companheiro pra vida inteira...
    E apesar de todo o medo que tá aí, vc continua no melhor caminho, como sempre... reconhecer o medo, saber que ele é real - e por motivos reais - mas não deixar que isso te paralise, que te faça deixar de viver ou, muito pior, de desejar a vida!!!
    Que sua essência seja sempre mais forte do que os medos e os baques do caminho...é o que te desejo com todo o coração!
    Beijo

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  5. Oi Marina.Meu primeiro comentario aqui no seu blog.Sinto mto pela Bolota :( E quero q saiba que daqui estou torcendo por vc!Para que quando chegar a hora, os irmãos(ãs) da Bolota venham cheios de saude!... Eu compartilho com vc desse medo da semana 17.pois foi ela que me tirou o chão tbm. Foi qndo recebi a noticia q meu bb tinha uma má formação incompativel com a vida.E que eu o teria com vida somente ate seu nascimento(q se deu com 37sem.) Hoje,10meses depois de ter perdido Vinicius, eu sinto exatamente como vc disse;''A minha vontade de ter um filho é infinitamente maior do que o medo que sinto, não tem nem medida de comparação''.... Sigo querendo mais um bb, mas com essa vontade tbm de descobrir a gestação la pelas 18,20sem rsrs.. Parabéns pelo texto, lindo,tocante... e obrigada pois vc me ajudou com sua escrita.Colocou em palavras td o q senti e ainda sinto,sentimentos q andavam confusos e agora consegui esclarecer... irei guardar esse texto para le-lo novamente mais vezes :) um beijo.. Ana.

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  6. Mari que texto mais lindo e emocionante, como sempre né?! =)
    Com certeza os medos estão aí e irão sempre nos acompanhar, mas a proporção que esses medos ocuparão em nossas vidas dependerá somente da forma como o encararmos.
    Admiro muito sua coragem e seu modo de viver, de coração!
    Não há prova de amor maior que enfrentar os próprios medos, por piores e maiores que eles sejam!Além do mais você jamais estará sozinha, sempre terá ao seu lado uma mão amiga para te ajudar a se levantar!
    Bjuss

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  7. Foto linda, texto lindo, tu é linda! rs! Que Deus continue te dando sabedoria e tranquilidade, porque em breve teu momento vai chegar! Beijo giganteeee!

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  8. Lindo texto Mari, como sempre vc faz com que através das palavras possamos sentir a sua dor...
    Acho que nunca ficaremos 100% tranquila diante da maternidade, minha mãe sempre me disse em várias situações de conflito que eu só a endenderia quando fosse mãe e tivesse uma vida pra cuidar e que esse cuidado iria até os últimos suspiros...hj mesmo ainda não sendo mãe eu já entendo ela, por que só de ter toda essa dificuldade de engravidar e de ver tantos relatos de perda já sinto o meu coração apertar, ou seja é o que vc disse, não temos garantia de nada, tudo pode acontecer...
    Desejo de coração que aos poucos vc encontre razões para fazer tudo que está disposta a viver valer a pena...
    Bjokas

    http://elomaterno.blogspot.com.br

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  9. Marina...
    Você traduziu- em sábias e lindas palavras- o que tanto pensei nesses dias, principalmente depois que escutei na radio a música "quem me dera" http://www.youtube.com/watch?v=IESa-AiW3iM Como eu queria garantias, mas não as tenho, não temos! E aí a gente se depara com o acaso e começa achar graça e até entende que assim é melhor!
    Obrigada por este texto, fez muito sentido pra mim!

    um beijo, querida

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