quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Pra gente se desprender

Eu preciso escrever um post sobre o livro O Poder do Discurso Materno, da Laura Gutman, me lembrem. Mas antes vou falar de outra coisa. Que é pra deixar registrado e seguir adiante, do jeito que tem que ser.

Logo que eu me descobri grávida, senti muita vontade de não contar pra ninguém, como disse aqui. Não era exatamente um casulo, vontade de ficar isolada. Só de me manter em silêncio sobre isso, guardar esse segredo pra mim. Como se eu sentisse que o bebê precisasse desse tempo sem muitas energias voltadas pra ele. Mas, aos poucos, comecei a perceber que eu também estava com medo (o que não anula o outro sentimento que acabei de comentar, eles coexistiam, apenas). Medo de dar errado. Medo de me jogar e quebrar a cabeça no asfalto. Medo de me entregar. Eu estava curtindo os sintomas e as mudanças todas, mas ainda não era uma coisa total, confesso. Os enjoos iam se intensificando - porque sim, muitas vezes o enjoo tem fundo emocional. Foi o jeito do meu corpo me dizer que estava sendo diferente dessa vez (pelo menos agora no começo, eu ainda não ouso dizer que vai ser tudo lindo), que estava tudo bem lá dentro. Coincidentemente, depois da minha consulta com a Cátia, os enjoos diminuíram 90%, acho que agora é só sintoma normal mesmo, rs.

Mas enfim. Como comentei no post sobre as primeiras semanas, estava meio chorona. Daí comecei a achar que tanto choro só podia ser por isso também, mais uma face do medo. Nem era tanto, eu realmente estou mais sensível, mas normal, eu choro fácil mesmo. Mas enfim, coloquei na cabeça que estava demais, me incomodei. Como eu sempre disse: não queria transferir para esta gestação os receios da outra.

Certo dia, no banho, minha ficha caiu. Eu ainda pensava constantemente na bolota. (Aliás, lembram desse post? Eu já sabia que estava grávida nesse dia). Eu ainda me prendia a ela. E sabe o que eu fiz? Comecei a conversar com ela (acho que nunca contei aqui com todas as letras, mas apesar de não termos ficado sabendo o sexo do bebê, tínhamos uma clara sensação de ser uma menina). Falei que a amo muito, e sempre vai ser assim. Que o lugar que ela ocupa em mim, aqui dentro do peito, não vai ser de mais ninguém, é um quarto na casa só dela. Que eu estava com um pouquinho de medo, mas que eu precisava me libertar para viver essa nova etapa da minha vida - e ela a dela, seja lá onde estiver. Que ela podia ir, porque eu também estava indo. Era a hora. E que não ficasse com medo também, pois daria tudo certo. Seremos sempre uma da outra, mas agora de uma forma diferente, como diz a música num outro nível de vínculo. E tudo bem ser diferente. Que tinha uma outra vida dentro de mim, e que eu amo as duas, mas que eu precisava me dedicar um pouquinho à essa, agora. Essa vida que está crescendo aqui, irmx dela, precisa do meu amor tanto quanto ela precisou, até falei que não precisava de ciúmes, rs - e é bem estranho, mas eu sinto que são pessoas completamente diferentes, ou seja, são amores diferentes, exclusivos.
Conversei, expliquei, chorei. E aos poucos foi mesmo passando. Como se eu tivesse nos libertado do que quer que estivesse nos prendendo uma à outra. Ficou o amor, mas se foi uma espécie de peso que ainda existia.

E aí segui em frente. Acho que já faz uns 15 ou 20 dias, mais ou menos.
Ainda um dia de cada vez, mas realmente o que eu sentia antes, no comecinho, não sinto mais.

E ontem, escutando o novo disco do Jeneci, prestei atenção na letra de uma música. Eu estava pensando em outra coisa, então a princípio nem me liguei com nada. Mas a música me pegou, a melodia é divina. Ouvi de novo. E comecei a chorar. É muito o que aconteceu e que eu acabei de contar aqui. Então resolvi escrever esse post, pra registrar tudo, deixar a letra e a música pra vocês também e dizer, de novo, que a gente se desprendeu (Pra gente se desprender, é o nome da música). Acho que foi quando eu percebi que realmente tinha acontecido. Já ouvi a música de novo, mas não me fez mal, foi só um insight daquele momento. Quem tiver um tempinho, ouça a linda voz da Laura Lavieri cantando, faz diferença. Mas vou deixar a letra também.



Eu sinto o tempo pairando em outro tempo
Correndo bem lento nas asas de um beija-flor
Que espera a flor acordar enquanto o dia não vem
Geleiras vão desabar mudando a cor do mar
Imenso que leva abraços e esperas
Minutos são eras a cada passo pro fim
Se o universo girar pra gente se desprender
Te encontro em outro lugar em paz
Ou não ou nunca mais

Agora é hora da gente se esquecer
Que o tempo e o vento não vão parar de bater
E a cada ponto final a história vai repetir
A gente é mais que um plural e a vida é muito mais
Que a gente espera temendo a toda queda
Deixa a geleira cair e o beija-flor descansar
Um novo agora virá


Escute o som do mar

10 comentários:

  1. Que post lindo! Como sempre, me emocionei.

    A vida tem que seguir.. não é esquecer bolota, isso jamais. Assim como eu jamais esqueço meus dois bebês, manos mais velhos do João. É outra fase, algo assim. Mas o amor sempre fica. Fica a saudade de coisas que não foram vividas! É assim que me sinto sempre!

    Beijo

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  2. Ai Marina, posso dizer com 100% de certeza, são dois amores!
    Cada um com seu espaço...é amor de mãe mesmo, que se multiplica a cada filho.
    Bolota te entendeu, tenho certeza...

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  3. Bolota tem orgulho de você, sei disso! E com certeza está muito feliz por te ver bem e gerando, com muito amor, esse baby. Amor nunca é demais.

    Bjs

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  4. Ai, Má... :'(
    Lindo, lindo...
    Um coração imenso pra muitos amores!
    (mas a gente tem que se liberar pra eles, mesmo!)

    Beijo e abraço apertado!

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  5. Nossa, Marina... não tenho nem palavras para comentar este post.

    Apenas que me emocionei e chorei com tanto sentimento, com tanto amor... Certeza que Bolota te entendeu perfeitamente.

    Beijão.

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  6. Linda a sua "conversa" com Bolota... Tenho certeza que ela compreendeu o que você quis passar, tanto que isso não está mais pesando pra você. E belíssima a música, eu já tinha ouvido! Curte esse novo agora, sabendo que sempre vai haver um espacinho no seu coração praquela que já não está mais aqui... Beijão!

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  7. Má coração de mãe é capaz de amar e amar e tanho certeza que bolota entende isso pq enquanto esteve aqui foi mto amada e agora é a vez desse outro serzinho que vc está gerando!!

    Letra linda!!

    Beijos

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  8. Seu bebezinho foi mt amado e ainda é e tenho certeza que este outro bebzinho te trata mts alegrias um bj post lindo

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  9. Ah, Má! Como esse processo foi importante, foi não? Tenho certeza que com as cartas na mesa com a Bolota, seu coração fica mais tranquilo para se entregar. Lindo! <3

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  10. Chorei aqui, agora! Amiga, que lindo, que emocionante este post, suas palavras, dá pra sentir sua emoção... Fica/permaneça em em paz, tenho certeza que a Bolotinha te entendeu.... Vcs de desprenderam para o bem de ambas.... O amor, esse nunca irá embora..... Se entregue ao novo ciclo, encerre o antigo... Vc fez bem...

    bjoooo grande,

    http://meupequenoreidavi.blogspot.com.br/

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