sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

O Poder do Discurso Materno

Faz tempo que terminei de ler "O Poder do Discurso Materno", da Laura Gutman, e ainda não havia conseguido parar para escrever sobre ele. Descoberta da gravidez, lerdeza, enjoos, pensamentos em outro lugar, viagem; enfim, vários fatores. Mas hoje resolvi que queria falar sobre isso.


"As lembranças se organizam na consciência por meio de palavras, que quase sempre foram proferidas por nossa mãe. Assim, organizamos as lembranças do ponto de vista do discurso materno - que em geral está distante da nossa real experiência infantil - e acabamos por vestir certos personagens, atuando sempre da mesma forma na esperança de obter amor  e aceitação. Quantas de nossas dificuldades afetivas, profissionais e familiares advêm daí?

Nesta obra, Laura Gutman explica o funcionamento de sua metodologia de construção da biografia humana, processo de autoconhecimento que permite às pessoas entrar em contato com experiências esquecidas no inconsciente e, com base em um novo ponto de vista, libertar-se do passado opressor, criando novas maneiras de estar no mundo."

Já vi muita gente dizendo que começou a ler esse livro com o olhar de mãe, mas no decorrer da leitura foi o olhar de filha que prevaleceu. Comigo não foi exatamente assim.
Quando soube do que se tratava, quis um na mesma hora. Fiquei muito curiosa pra saber como era esse método de construção da biografia humana, como ela iria abordar esse tema, etc e tal.
Claro que toda essa minha curiosidade não veio do nada. Eu tinha um pequeno motivo para querer logo esse livro em minhas mãos. Mesmo sem saber exatamente como seria, me identifiquei com essa sinopse. Então, sim, comprei o livro pensando em mim.

E me surpreendi.
Basicamente, o que ela fala ali, sobre o método da construção da biografia humana, é o que eu faço, sozinha, com a minha história. Eu não fiquei surpresa com a abordagem utilizada ou em como aquilo funciona para os "pacientes" dela (e da equipe). Fiquei surpresa de saber que o que eu faço há uns bons anos é uma linha de terapia. Até porque, até onde eu me lembre, nunca tinha conhecido alguém que fazia ou achava esse um método válido, digamos assim. Me lembro uma vez, numa aula da facul de psicologia, toquei por alto nesse assunto e ninguém nem pensava nisso de uma forma parecida com a minha.
Óbvio que o fato de ser uma terapia, uma coisa com muito estudo e pesquisa por trás, é mais abrangente do que aquilo que eu faço, ainda mais porque não tenho ninguém que me conduza e que me ajude a ver alguns fatos de fora. É tudo na base do instinto mesmo, tateando no escuro. Mas o objetivo é o mesmo. Aliás, também fiquei surpresa de saber que estou chegando nesse objetivo (conduzindo a coisa toda) de uma forma parecida com a retratada ali.

Na maioria dos casos que o livro mostra, as pessoas não se lembram na quase nada da sua infância, praticamente nenhum evento ou sentimento havia sido nomeado para que pudesse ser "armazenado". Nesse ponto eu não me identifiquei muito, porque me lembro de muita coisa da minha infância. Muita coisa. Sempre tive uma consciência, digamos, diferente com relação as coisas que me acontecem. Quando eu era criança e me ressentia por algum motivo e ninguém me entendia, ou se eu não conseguia expor o que se passava comigo, eu sabia que aquilo não era "normal" (usando os termos que tenho hoje, na minha cabeça da época era tudo mais rudimentar, rs). Eu não conseguia mudar alguns jeitos, mas sabia que um dia poderia vir a entender tudo aquilo. E o fato de eu acreditar que muita coisa que nos acontece hoje vem da infância, é justamente pela minha experiência.

Então, em algum momento que já não me lembro mais especificamente qual foi, comecei a fazer isso com uma certa frequência. Provavelmente quando eu estava passando por alguma dificuldade, daquelas que a gente não sabe de onde veio. Eu consegui associar um evento do presente a um acontecimento do passado. E um novo mundo se abriu pra mim. Aos poucos, muito lentamente, fui ressignificando a minha relação com muito do que me aconteceu. É claro que não posso mudar a forma com que tudo se deu, fazer com que pessoas que me deixaram triste lá atrás se arrependam e venham me pedir perdão de joelhos. Esse é um processo meu. A minha forma de lidar com tudo aquilo vai mudando e, consequentemente, vou me livrando de amarras que, de outra forma, talvez eu nem saberia que tinha.

Sem contar que eu também acredito que quanto mais a gente se entende e se descobre, mais a gente pode praticar a empatia e entender o outro. Não é concordar ou aceitar tudo que o outro faz. Mas saber que aquelas ações não estão acontecendo por acaso, que todo mundo tem uma história de vida diferente e, portanto, vai ter uma reação diferente frente a algum obstáculo.

Também me ajuda muito a entender a minha irritação diante de algumas coisas. Nessas semanas com a minha sobrinha aqui, por exemplo, andei ficando irritada com alguns de seus comportamentos. Não vou expor aqui porque nem é minha filha, e pra dizer eu precisaria expor outras pessoas, mas depois de um tempo refletindo vi que alguns detalhes estavam em mim, na minha história. Talvez por eu ter passado por coisas semelhantes mas ter internalizado e me expressado de forma diferente. Talvez por ainda serem coisas que mexem comigo. Talvez, muito provavelmente, por serem coisas que ainda precisam ser revistas. Foi bom pra eu entender, na prática, que alguns sentimentos contraditórios que as crianças nos despertam vêm de nós mesmos, e não delas. Não podemos obrigá-las a se comportar como achamos "certo" (por já termos passado por isso), como se o fato de "protegê-las" as salvassem do que nós mesmas vivemos. É bem complexo - e sim, vou ter que comer muito arroz com feijão pra chegar pelo menos perto do que acho legal, mas a gente tem que começar de algum lugar, não é mesmo?

É um trabalho de formiguinha, aos pouquinhos é que vou conseguindo avançar nessa minha autoterapia, indo em busca de mais autoconhecimento e, por que não, me dando um pouco mais de bagagem para lidar com o pequeno ser que hoje me habita.

Ler todas aquelas histórias, as teorias, os resultados, tudo isso foi me dando mais ânimo pra continuar o que faço, aprendi muita coisa nova também. Porque não é fácil, minha gente. A gente precisa estar disposto a encarar certas coisas, e nem sempre o que vemos é bonitinho. Às vezes eu dou um tempo disso tudo, porque preciso respirar outros ares para espairecer. Mas já percebi que isso tem me ajudado muito, em muitos aspectos, e vou seguir em frente assim. O próximo passo é passar tudo pro papel. Mas isso já é assunto pra outra conversa.




4 comentários:

  1. Eu já estava curiosa para ler esse livro, agora fiquei ainda mais!

    Beijo

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    1. Cacau, é ótimo! Pelo menos eu gostei, ahsuahsuhasa
      se ler, me conta!

      beijo beijo!

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  2. Má, em primeiro lugar: estou usando o caderninho de anotações que vc me deeeeeuuuu! E eu me lembrei disso por conta da sua última frase "o próximo passo é passar tudo para o papel". Estou passando. E vem me fazendo um bem enorme.

    Sabe o que eu acho? Que a ignorância é uma benção. E as vezes eu faço um esforço danado para não saber, não me empoderar, entende? Cansa querer mudar, querer entender, querer fazer diferente, querer perdoar e ser perdoado, querer tudo por conta deste conhecimento enorme que a gente alcança quando é mãe e não conseguir muito, na prática, como vc falou com a sua sobrinha.
    Claro que em 90% do tempo nós conseguimos agir como o programado, o esperado, o estudado. Claro que como mães colocamos em prática muito do que desejamos aos nossos filhos.
    Mas é claro que estes 10% que fazemos ao contrário do que programamos nos faz tão inseguras às vezes.... e isso é péssimo.
    E estou falando por mim, por favor, não de vc. É de mim.
    A rotina de dormir da Laura tem muito do que eu não tive quando criança.... tem muito da minha presença, do meu carinho, do meu aconchego, coisa que nunca tive pq meu irmão mais novo nasceu quando eu tinha 11 meses... logo, fiquei total como a "irmã grande", sendo realmente muito pequena.

    Enfim, fiz tudo com a Laura do jeito que eu considero certo e depois de uns 20 min eu estava quase dormindo na cama dela e ela lá toda acordada... falei "amor, vou chamar o papai para vir te fazer dormir, ok?" e ela "pq, mamãe??" e eu "pq vc dorme bem rapidão com ele e comigo vc não quer dormir" e ela deu uma murchada. Então eu falei "não, eu fico aqui com vc, não tem problema algum, fico aqui até vc dormir, vamos dormir juntas" só que ela já tinha ficado magoada e disse "quero o meu papai. só durmo com ele".... eu tentei reverter a situação, ficar com ela, abraçar, mas ela não arredou o pé "meu pai, quero o meu pai".
    foim, foim, foim...

    Foi o suficiente para eu me achar uma bosta, uma cansada, uma folgada, sem coração, mãe de merda. Mas passou. Tomei banho e quando saí, o pai já estava na sala de volta. Ela dormiu em 3 min.
    Enfim...

    o que quero dizer é isso: quanto mais conhecimento, mais a gente se cobra, então vá devagar, ok? Não no conhecimento, devagar nas cobranças.

    Beijos grandes!!!

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    1. Dani, que bom saber que vc tá usando o caderninhooo!! ebaa, haha
      eu adoro escrever, seja no computador, seja no papel, faz bem pra gente, né?!

      tô rindo aqui do "a ignorância é uma benção", haha. Já falei isso uma vez, porque dá muito trabalho saber, ir atrás de informação, se empoderar, etc. Nem tô falando disso que escrevi hoje, mais no geral mesmo, sabe? Entendi perfeitamente o que vc disse.

      Mas também acho que é libertador. Tenho sempre essa sensação quando percebo que venci mais uma barreira, ganhei mais conhecimento, etc. O trabalho que dá compensa, na minha opinião. Acho que me cobro mais pelo que não sei do que pelo que sei, hausahshau. E como eu disse, é uma coisa natural, e aos poucos, viver 24 horas em função disso tb já é demais, rs. Mas sim, quando a gente não consegue agir como gostaria, se sente mal mesmo, aconteceu essa semana. Como eu disse, é um processo só nosso, não dá pra esperar que as outras pessoas estejam na mesma vibe que a gente, isso é que pode ser muito frustrante.

      Poxa, eu também ia ficar #arrasada se minha filha dissesse que preferiria o pai, ainda mais na hora de dormir, que é delícia, rs. Mas é assim, né?! Esses pequenos nos ensinam o tempo todo, mesmo quando dá errado, rsrs A gente precisa tá aberto a essas coisas tb.

      Ufa! Várias coisas a serem ditas, que legal essa troca!
      Nos vemos semana que vem \o/

      Beijo grande!

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