terça-feira, 15 de abril de 2014

Gestação: caminho para dentro

Que eu sou uma pessoa intensa, que gosta de remexer no que está sentindo, buscar novas visões e entender bem o que se passa aqui dentro não é nenhuma novidade pra quem me conhece ou me lê. Isso acontece por uma série de motivos que, se eu fosse explicar direitinho, daria um (ok, mais de um) texto a parte. O fato é que eu sou mesmo assim e tudo bem, gosto disso. Só não sabia que isso mudaria um pouco quando eu engravidasse.

Na verdade, é meio complicado tentar explicar, porque como ainda estou no meio do processo, não sei em que pé estamos ou o que aprenderei com tudo isso. A sensação que eu tenho é que passou um vendaval surpresa por essas bandas e que ainda estou perdida. Percebo que há muita coisa para ser arrumada, limpa e organizada, mas é difícil saber por onde começar, tamanha bagunça do local. Aliás, isso aqui faz parte do começo da organização. Escrever, pra mim, é arrumar a casa, colocar cada coisa em seu lugar.
E não que seja uma coisa muito grave ou um problema enorme. Mas viver o novo, mesmo que seja cotidiano, faz a visão ficar mais apurada mesmo, não tem jeito. A prática é bem diferente da teoria, isso eu constato todo dia. E sim, isso mexe com o que a gente já sabe sobre nós mesmos. Ou melhor, com o que achamos que sabemos. Estar grávida é exatamente esse bagunçar de certezas. Ou é a maternidade, no geral, que é? Também não sei se isso acontece com todas as mulheres e só algumas é que decidem dar ouvidos a esse barulhinho de inquietação e ir investigar, ou se tem mulher que é mesmo super prática e bem resolvida. Fato é que eu tentei ignorar e colocar outras coisas em cima, mas não deu.

Lá atrás, quando comecei a estudar sobre gestação, parto e nascimento, fui criando uma espécie de base, que foi crescendo e se transformando claramente no que eu queria e desejava. Que demais!, eu pensava. Pude decidir isso assim tão cedo, imagina só, tem gente que só se dá conta do que realmente quer com 30 semanas pra lá, que bom que vou ter mais tempo pra me organizar.
ha-ha-ha.
Que tolinha que eu fui, achando que já estava assim tudo pronto, que a vida organiza a estrada dessa forma tão certinha pra gente só chegar e passar. Claro, por eu já ter muita informação e realmente já saber o que queria, muita coisa ficou mais fácil, sim. Já sabia desde o começo o que priorizar, aonde ir, com quem falar, quanto ter. Ter tudo encaminhado foi mesmo uma mão na roda, não posso reclamar. Mas eis que eu engravido e descubro, no meio do processo, que existem outras questões a serem abordadas. Questões que eu não encontrei em nenhum blog ou livro, pelo simples fato de serem só minhas. E que essas questões poderiam interferir, mesmo que indiretamente a princípio, nas decisões anteriores. E que só quem pode escolher alguma coisa sou eu, porque né?! empoderamento tem dessas coisas - e que ótimo que tem! Só que nem sempre é fácil escolher, esse é o ponto. Nem sempre é possível mudar uma rota assim, quando já se está pra lá do meio da linha de partida (e de chegada também). Nem sempre é fácil quando existe um prazo. E aqui está a minha principal questão: nem sempre é fácil quando existem outras pessoas envolvidas. Não só você. Não só você, seu bebê na barriga e seu marido. Outras pessoas. Ao mesmo tempo em que eu tenho plena consciência de que toda essa escolha está numa esfera muito pessoal e que não posso deixar de fazer, o que quer que seja, por causa da opinião de terceiros, também sei que bater de frente com o que se apresenta como obstáculo nem sempre é a melhor solução. É preciso saber dosar as coisas, e é nisso que consiste a bagunça que tenho que arrumar.

Na realidade, tudo isso tem muito mais a ver com assuntos pessoais e bem menos com o parto em si, ou com a gestação toda. Nem só de processos fisiológicos, nutrientes e semanas se faz um bebê. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, nutrientes e bebê se faz uma mãe. Ou melhor, nem só de processos fisiológicos, bebê e maternidade se faz uma nova mulher. Ah, acho que deu pra entender. Existem outras coisas. Existe aquilo que você acha que já está super bem resolvido, mas que é só numa situação dessas - com muito hormônio e alguma reflexão envolvidos - é que realmente vêm à tona e você percebe que não, não está super bem resolvido coisa nenhuma. No máximo estava pré-resolvido, com alguma decoração em volta, disfarçando e fazendo as vezes solução. Só aí você se dá conta da poeira que mora debaixo do tapete e o tamanho da faxina que terá que fazer, se quiser realmente viver num lugar limpo e parar de ter problemas respiratórios de uma vez por todas.

Quando você tem aquele click e de repente sabe de onde vem aquele tal barulhinho que não te deixava em paz, quando os acontecimentos são nomeados, eles passam a realmente existir, não é mais uma sensação ou uma ideia da sua cabeça. Você sabe pro que está olhando. E sabe, pelo menos a princípio, o que deve ser feito. E aí você chega em outro abismo: o saber o que fazer e a ação propriamente dita. Não sei se conseguirei construir essa ponte a tempo, porque realmente existem fatores externos que não sou eu quem comando. Isso me dá um certo desconforto, mas é preciso começar.
Posso deixar pra amanhã, pra depois que o bebê nascer? Claro que posso, a decisão é mesmo só minha. E poderia até ser mais fácil desse jeito. Mas quero ver é juntar fácil e maternidade na mesma frase - é quase um erro de concordância. Quero ver é dormir tranquila numa bagunça dessa.
Não faço ideia do que vai acontecer logo ali adiante. Mas pra saber só mesmo indo, não é? Então eu vou.


                                    
O caminho das pedras vai dar no mar.
Né?

3 comentários:

  1. <3
    Foca no amor, Marina. No amor e no que te faz feliz.
    Para mim, maternidade significou, entre outras coisas, rever infância e papéis sociais desempenhados por todos que eu conheço, ressignificar tudo o que me cercava. Por isso dizem que é tão revolucionário ser mãe. Não sobra nada, mas você, se agir de acordo com o que faz sentido para você e suas crenças, nunca esteve tão inteira.
    beijos e siga com fé

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  2. É, Má, começa na gravidez, com a chuva de hormônios e de expectativas, mas os clicks continuam vindo aos montes...
    Às vezes é difícil, às vezes é doído, mas acho extremamente importante aceitar tudo isso que vamos descobrindo no caminho... vai purificando nossa relação com a gente e, certamente, com nossas mães e nossas filhas!
    não que eu precisasse te dizer isso, né?! Vc é mestre no assunto! ;)

    Beijão

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  3. Marina, vai deixando a vida te levar... Incertezas a gente tem de monte e como mãe, mais ainda. Faz tua parte que o resto tudo se ajeita. Nosso mal é querer controlar o que é incontrolável às vezes. Beijos carinhosos!

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