Esse assunto sempre chama a minha atenção. Corpo feminino. Beleza real x capas de revista photoshopadas - e a busca incessante de algumas mulheres por medidas e resultados que, ou chegam as custas de muito "sofrimento", ou nunca chegarão. E o que chama a minha atenção é justamente isso: por que não gostamos do nosso corpo como ele é? Por que é tão difícil romper a barreira do que é dito ideal e nos orgulharmos com o que vemos no espelho? A resposta é complexa, eu sei, não estou banalizando a coisa toda. Sei que, se por um lado algumas mulheres realmente só fazem certas coisas para serem (ou tentarem ser) as mais magras da turma, por outro, outras tantas tem suas próprias questões na cabeça e lutam para não sucumbirem diante de tanta demanda. A sociedade ainda é muito machista, ainda temos revistas e sites divulgando fotos, aos quatro cantos, que beleza é corpo magro, mas nem tanto, tem que ter curvas, sem celulite, sem estria, em cima de um salto 15, com a depilação em dias e o cabelo todo trabalhado no esticamento. Mulher acima do peso é desleixada; deixar a unha por fazer, então, nem se fala. (nota da autora: não estou falando de saúde, que isso não se discute; estou falando sobre gente achar que só é bonita quem é 'quinem' a moça da revista).
O que eu tenho a dizer sobre isso: não tenho um pingo de paciência!
Deve existir, em algum lugar, mulheres que realmente são assim "de nascença", que se sentem ótimas sendo quem são. Mas não é a esmagadora maioria. Ou seja: pra mim, isso não é padrão de
"O que é, afinal, um corpo bonito? Quem define o belo? Quem traça a linha entre a beleza e a feiúra?
Beleza verdadeira é beleza de gente de verdade. Gente que chora, ri, tropeça, se machuca e se recompõe. Gente que vê passar os dias, que luta, que se delicia. Gente que ama, que goza, que cresce e amadurece, que se olha no espelho e gosta de perceber em si cada marca deixada por tudo aquilo que se viveu."
É isso que nos diz Renata Penna, no texto que linkei acima. E sim, eu concordo com ela.
Falando de mim, agora.
Até onde eu me lembro, sempre gostei do meu corpo. Sempre fui magra, apesar de hoje não ser mais tanto, rs. Mas não, não estou querendo dizer que só me gosto por ser magra. Estou dizendo que sempre fui mais ou menos do mesmo jeito, apesar de comer um monte de besteiras e ser meio sedentária . É genética, eu acho. Quer dizer, antes eu era muito magra e só comia besteiras e era sedentária. Hoje eu tenho um corpo com mais curvas, me alimento bem melhor e faço algum exercício, ainda sem muita regularidade. Não é uma relação direta, aqui nesse meu caso, e só tô explicando pra ficar tudo esclarecido entre nós. Quase fui modelo, mas não segui carreira porque não tinha saco pra essa coisa de emagrecer pra viver, rs. Segui anônima, sem dinheiro, mas do meu jeito. Fui crescendo e meu corpo foi mudando. Em algum momento, há uns 4 anos atrás, mais ou menos, eu dei uma engordadinha básica - e acredito que era inchaço, causado por um anticoncepcional que eu tomava, porque foi só trocar que emagreci. O fato é que eu já não tenho o corpo de antes, o metabolismo vai mudando mesmo, mas eu o adoro assim como é. O que não quer dizer que eu não enxergue defeitos. Tenho um monte de celulites (na minha visão são milhões delas, por todos os lados, e é sempre com isso que fico encucada quando vou a praia, haha), algumas estrias e tem dias que me acho péssima. Todo mundo tem seus dias ruins, não é? Apesar disso, me sinto muito confortável dentro do meu corpo.
Tanto que já até registrei.
Ano passado eu voei até a Cidade Maravilhosa para participar do projeto do fotógrafo Jorge Bispo, o Apartamento 302. Ele fotografou mais de 100 mulheres anônimas, reais, do jeito que são, sem nenhum photoshop, nuas. Foi uma das melhores experiências que eu já tive, se querem saber. E é uma maravilha ver todas as fotos. Mulheres de todos os tipos, de todas as cores, de todos os tamanhos. Todas belas. Todas possíveis (e sim, estamos em processo de edição e o livro desse projeto chega no mês que vem!).
Assim como este projeto que participei, existem alguns que são dedicados às mães. Porque o nosso corpo muda muito depois de gerar outra pessoa, e algumas vezes é difícil aceitarmos que nada será como antes, inclusive o nosso corpo.
Mesmo tendo gestado por apenas 4 meses, senti na pele que uma gravidez nos transforma. No meu caso, não ficou impresso do lado de fora, aos olhos alheios, o tanto de coisa que mudou - mas de certo ficou impresso lá dentro. O fato é que eu me sinto diferente, como se estivesse maior. Não sei explicar muito bem. Fico pensando como é depois dos 9 meses. Com certeza vou querer participar de um projeto para mães também.
Entendo que para algumas é difícil ver beleza, assim de imediato. Porque volta naquilo que eu disse lá em cima: não é isso que vemos por aí, né?
O que eu quero saber, de verdade, é: por que buscamos, lá fora, um olhar que deveria vir de dentro? Por que não fazemos as pazes com a nossa autoestima e não valorizamos o que nos faz bem?
Acho que me sinto "maior" porque tenho mais histórias vividas. Eu me surpreendi muito positivamente com o poder do meu corpo e da natureza depois de tudo que passei. Não tem como eu não me gostar ainda mais depois disso - mesmo que, a princípio, venha um certo estranhamento.
E também faz parte do autoconhecimento. Eu sei de cada detalhe do meu corpo. Das marcas que carrego e do espaço que ainda há para novas histórias. Não quero me envergonhar de quem sou, ou desejar ser outra pessoa.
O bonito é o que nos diferencia, é o que temos de particular. Que graça tem parecer uma Barbie, de plastico, sem opções? Ruim seria se ainda tivéssemos a mesma cara desde os 13 anos, mas com a maturidade, o pensamento e o conhecimento que temos hoje. Já pensou nisso? Mudam os caminhos, as oportunidades, as ideias. Mudamos por dentro. Por que permanecer igual por fora?
Acho que eu se eu fosse fotógrafa, com certeza iria voltar o meu olhar para as mulheres, todas elas, jovens, velhas, solteiras, mães. Todas.
Por experiência própria, é muito gostoso se deixar fotografar de forma natural - com ou sem roupa, não estamos nesse tema ainda, rs. Gosto de ter esse ponto de vista sobre mim mesma, é muito bom. Quem sabe alguma hora dessas as coisas não mudam pra mim e eu me arrisque, não é? Não faço ideia. Mas enquanto isso, te faço o convite: permita-se amar você inteira. Por dentro e por fora. Se puder, registre. Busque aí dentro o que faz seus olhos brilharem. E depois me conta o que achou.
Eu, no Apartamento 302. Arquivo pessoal.
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