quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A beleza do corpo feminino

Eu estava mesmo querendo falar sobre isso aqui, mas acabava deixando pra depois, ou esquecendo. Aí li esse texto lá no Vila Mamífera e simplesmente adorei. Então vai ser agora.

Esse assunto sempre chama a minha atenção. Corpo feminino. Beleza real x capas de revista photoshopadas - e a busca incessante de algumas mulheres por medidas e resultados que, ou chegam as custas de muito "sofrimento", ou nunca chegarão. E o que chama a minha atenção é justamente isso: por que não gostamos do nosso corpo como ele é? Por que é tão difícil romper a barreira do que é dito ideal e nos orgulharmos com o que vemos no espelho? A resposta é complexa, eu sei, não estou banalizando a coisa toda. Sei que, se por um lado algumas mulheres realmente só fazem certas coisas para serem (ou tentarem ser) as mais magras da turma, por outro, outras tantas tem suas próprias questões na cabeça e lutam para não sucumbirem diante de tanta demanda. A sociedade ainda é muito machista, ainda temos revistas e sites divulgando fotos, aos quatro cantos, que beleza é corpo magro, mas nem tanto, tem que ter curvas, sem celulite, sem estria, em cima de um salto 15, com a depilação em dias e o cabelo todo trabalhado no esticamento. Mulher acima do peso é desleixada; deixar a unha por fazer, então, nem se fala. (nota da autora: não estou falando de saúde, que isso não se discute; estou falando sobre gente achar que só é bonita quem é 'quinem' a moça da revista).

O que eu tenho a dizer sobre isso: não tenho um pingo de paciência! 
Deve existir, em algum lugar, mulheres que realmente são assim "de nascença", que se sentem ótimas sendo quem são. Mas não é a esmagadora maioria. Ou seja: pra mim, isso não é padrão de porra coisa nenhuma.

"O que é, afinal, um corpo bonito? Quem define o belo? Quem traça a linha entre a beleza e a feiúra?

Beleza verdadeira é beleza de gente de verdade. Gente que chora, ri, tropeça, se machuca e se recompõe. Gente que vê passar os dias, que luta, que se delicia. Gente que ama, que goza, que cresce e amadurece, que se olha no espelho e gosta de perceber em si cada marca deixada por tudo aquilo que se viveu."

É isso que nos diz Renata Penna, no texto que linkei acima. E sim, eu concordo com ela.

Falando de mim, agora.
Até onde eu me lembro, sempre gostei do meu corpo. Sempre fui magra, apesar de hoje não ser mais tanto, rs. Mas não, não estou querendo dizer que só me gosto por ser magra. Estou dizendo que sempre fui mais ou menos do mesmo jeito, apesar de comer um monte de besteiras e ser meio sedentária . É genética, eu acho. Quer dizer, antes eu era muito magra e só comia besteiras e era sedentária. Hoje eu tenho um corpo com mais curvas, me alimento bem melhor e faço algum exercício, ainda sem muita regularidade. Não é uma relação direta, aqui nesse meu caso, e só tô explicando pra ficar tudo esclarecido entre nós. Quase fui modelo, mas não segui carreira porque não tinha saco pra essa coisa de emagrecer pra viver, rs. Segui anônima, sem dinheiro, mas do meu jeito. Fui crescendo e meu corpo foi mudando. Em algum momento, há uns 4 anos atrás, mais ou menos, eu dei uma engordadinha básica - e acredito que era inchaço, causado por um anticoncepcional que eu tomava, porque foi só trocar que emagreci. O fato é que eu já não tenho o corpo de antes, o metabolismo vai mudando mesmo, mas eu o adoro assim como é. O que não quer dizer que eu não enxergue defeitos. Tenho um monte de celulites (na minha visão são milhões delas, por todos os lados, e é sempre com isso que fico encucada quando vou a praia, haha), algumas estrias e tem dias que me acho péssima. Todo mundo tem seus dias ruins, não é? Apesar disso, me sinto muito confortável dentro do meu corpo.

Tanto que já até registrei.
Ano passado eu voei até a Cidade Maravilhosa para participar do projeto do fotógrafo Jorge Bispo, o Apartamento 302. Ele fotografou mais de 100 mulheres anônimas, reais, do jeito que são, sem nenhum photoshop, nuas. Foi uma das melhores experiências que eu já tive, se querem saber. E é uma maravilha ver todas as fotos. Mulheres de todos os tipos, de todas as cores, de todos os tamanhos. Todas belas. Todas possíveis (e sim, estamos em processo de edição e o livro desse projeto chega no mês que vem!).

Assim como este projeto que participei, existem alguns que são dedicados às mães. Porque o nosso corpo muda muito depois de gerar outra pessoa, e algumas vezes é difícil aceitarmos que nada será como antes, inclusive o nosso corpo.
Mesmo tendo gestado por apenas 4 meses, senti na pele que uma gravidez nos transforma. No meu caso, não ficou impresso do lado de fora, aos olhos alheios, o tanto de coisa que mudou - mas de certo ficou impresso lá dentro. O fato é que eu me sinto diferente, como se estivesse maior. Não sei explicar muito bem. Fico pensando como é depois dos 9 meses. Com certeza vou querer participar de um projeto para mães também.
Entendo que para algumas é difícil ver beleza, assim de imediato. Porque volta naquilo que eu disse lá em cima: não é isso que vemos por aí, né?

O que eu quero saber, de verdade, é: por que buscamos, lá fora, um olhar que deveria vir de dentro? Por que não fazemos as pazes com a nossa autoestima e não valorizamos o que nos faz bem?

Acho que me sinto "maior" porque tenho mais histórias vividas. Eu me surpreendi muito positivamente com o poder do meu corpo e da natureza depois de tudo que passei. Não tem como eu não me gostar ainda mais depois disso - mesmo que, a princípio, venha um certo estranhamento.
E também faz parte do autoconhecimento. Eu sei de cada detalhe do meu corpo. Das marcas que carrego e do espaço que ainda há para novas histórias. Não quero me envergonhar de quem sou, ou desejar ser outra pessoa.

O bonito é o que nos diferencia, é o que temos de particular. Que graça tem parecer uma Barbie, de plastico, sem opções? Ruim seria se ainda tivéssemos a mesma cara desde os 13 anos, mas com a maturidade, o pensamento e o conhecimento que temos hoje. Já pensou nisso? Mudam os caminhos, as oportunidades, as ideias. Mudamos por dentro. Por que permanecer igual por fora?
Acho que eu se eu fosse fotógrafa, com certeza iria voltar o meu olhar para as mulheres, todas elas, jovens, velhas, solteiras, mães. Todas.
Por experiência própria, é muito gostoso se deixar fotografar de forma natural - com ou sem roupa, não estamos nesse tema ainda, rs. Gosto de ter esse ponto de vista sobre mim mesma, é muito bom. Quem sabe alguma hora dessas as coisas não mudam pra mim e eu me arrisque, não é? Não faço ideia. Mas enquanto isso, te faço o convite: permita-se amar você inteira. Por dentro e por fora. Se puder, registre. Busque aí dentro o que faz seus olhos brilharem. E depois me conta o que achou.


Eu, no Apartamento 302. Arquivo pessoal.

terça-feira, 8 de outubro de 2013

'Complete a frase'

Oi, gente! Quanto carinho recebi no post passado, agradeço de coração mesmo! Pra mim é um assunto bem sério - e ainda pretendo escrever sobre isso, no momento mais oportuno - foi muito bom saber que não estou sozinha nesse mundão de meu Deus. Obrigada mesmo!

Então que a Morgana, aquela linda, me indicou pra participar de uma Tag. Nunca participei dessas coisas, e confesso que nem todas me atraem (#sousincera hahaha), mas a Morgana é sempre uma fofa e essa eu gostei mesmo, achei interessante as perguntas e tal. Enfim, vou responder \o/

As regras são:
- Colocar o link do blog que criou a tag: Segredos da Luma
- Colocar o link de quem indicou você: Dois corações cariocas (mais um!)

e tem a regra para indicar 6 blogs e avisar a cada um deles, mas não vou indicar ninguém, porque sou rebelde, hahaha.

Então vamos lá:

1 - O mundo seria mais feliz se essa crença de que o status, o consumo, o dinheiro são mais importantes do que o ser. Podemos ver hoje em diversos lugares: pessoas gastando todo seu tempo, reclamando a maior parte dele, para ter coisas (e as vezes achando que também podem ter pessoas). Quando, na verdade, precisamos de muito pouco material para viver. A felicidade é algo que vem de dentro de nós e se reflete no meio, não o contrário.

2 - Uma amizade verdadeira é realmente importante quando: existe confiança. Confiança para contar aquele segredo de infância. Pra dividir uma dor. Pra compartilhar aquela alegria repentina, as surpresas boas da vida e até o tédio. Confiança para se entregar mesmo, poder viver sem se preocupar em ter que se explicar para alguém.

3 - Paciência e tolerância são para mim: fundamentais. Eu costumava dizer que "a paciência é uma dádiva... que eu não tenho". Mas hoje eu sou muito mais calma do que antes, tanto comigo quanto com os outros - o que não significa que eu não me estresse algumas vezes, dependendo do quanto a pessoa me irritar, rs. Tolerância é essencial, principalmente com as ideias opostas às nossas - é preciso entender que existem tantas visões no mundo quanto pessoas, ou seja, muitas (muuuitas!) serão diferentes da nossa, mas caberá direitinho na vida do outro - e sim, há espaço suficiente para todas elas abaixo do céu.

4 - Algo que me irrita profundamente: gente que projeta no outro a própria verdade e as próprias expectativas. Querer que o outro - o filho, o marido, a amiga, a moça da novela - tome as mesmas atitudes que você supostamente tomaria, e soltar faíscas de raiva e praguejar por todos os lados quando isso não acontece. Sim, isso me irrita profundamente.

5 - Acho que pessoas mais humildes são iguais a todas as outras, com os mesmos direitos e deveres, ninguém é menos ou mais do que o outro - mas essa é minha visão de mundo, sei que na prática as coisas são bem diferentes.

6 - Uma qualidade indispensável nas pessoas: respeito. Cada pessoa é um mundo diferente - e dentro dele cabem todas as qualidades e defeitos que lhe apetecerem. Até os conceitos de qualidade e defeito podem variar de pessoa pra pessoa. Mas a partir do momento em que se tem respeito - a si, ao próximo e ao desconhecido -  as coisas ficam realmente mais fáceis de lidar.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

um segredo

Deixa eu contar uma coisa pra vocês: eu não gosto quando os adultos tratam as crianças como se elas não soubessem e não entendessem nada do que se passa ao seu redor. Não gosto quando falam mentiras pra elas. Não suporto quando riem com sarcasmo (e não porque acharam bonitinho ou algo assim) de suas frases ou atitudes. Não gosto quando as pessoas projetam nas crianças o que elas não foram. Não gosto quando decidem que tipo de futuro a criança vai ter, como se só houvesse uma única escolha. Não gosto quando as pessoas definem que sabem o que a criança está sentindo a partir dos seus achismos de que todas são iguais, e não por suas particularidades. Não gosto mesmo, de jeito nenhum. Não gosto que insistam em padronizá-las. Simplesmente não suporto quando falam que as crianças, desde bebês, têm que passar por coisas ruins e difíceis para aprender que o mundo não é bom. Poderia repetir essa última frase mais quinhentas vezes, apenas para frisar o quanto eu não a suporto. Não gosto quando enganam os pequenos, como se eles não percebessem o ato. Não gosto de gente que acha que criança é manipuladora. Não gosto de gente que acha que criança é bobo da corte pros adultos. Não gosto quando mentem pra elas. Sim, sei que já escrevi isso, mas estou repetindo, porque simplesmente não gosto quando mentem pra elas. Não gosto que batam nelas. Não gosto que ignorem seus sentimentos. Não gosto quando não dão ouvidos ao que dizem, porque acham que "é coisa de criança/ não entendem nada/ logo vai passar". Não gosto quando acham que as crianças não sentem tristeza ou mágoa ou raiva ou qualquer sentimento inerente ao ser humano. Não gosto quando percebem que elas estão tristes, mas acham que é algum tipo de frescura ou manha. Não gosto quando diminuem seu sentimento. Mais uma vez, não gosto de gente que não acredita no que as crianças dizem só porque acham que "elas não sabem o que falam".

Não gosto é só pra ilustrar. Eu tenho vontade de chorar quando vejo essas cenas se repetirem, dia após dia, para quase todos os lados que eu olho. Às vezes eu choro.
É difícil sentir uma coisa muito específica e dizerem que não, você está errado, não tá sentindo isso, é coisa da sua cabeça.
É muito difícil aprender desde cedo que não adianta falar certas coisas, porque não vão acreditar em você.
É muito difícil passar por situações que você não se sente preparado, mas determinaram que você está - e ainda ouvindo que é para o seu bem. E você não consegue entender como que "bem" pode vir de algo que te apavora sobremaneira.
É muito difícil chorar pensando em todas as coisas que você gostaria de falar, mas não consegue.
É difícil crescer sentindo medo.
É ainda mais difícil crescer acreditando que o que você sente é errado.
Alguma hora vai passar, dizem, você vai aprender. Mas não passa.

Você tem amor, você tem brinquedos, você tem uma família que te ama, e que você também ama, e alguns poucos amigos.
Mas ainda falta algo. Uma confiança, talvez. Você não sabe, ainda não descobriu o que é confiança.
Quando descobrir, vai perceber que mesmo dentro daquela casa grande, e tendo um quarto só seu, e tendo tido uma infância também feliz e com boas memórias, existe um sentimento que não orna com tudo aquilo. Um sentimento que só a pouco tempo você soube nomear, mas não tem coragem nem de falar, porque sabe que vão dizer, ainda hoje, você adulta, que não foi nada disso, você entendeu tudo errado. Talvez seja mesmo só coisa da sua cabeça. Mas talvez não.

E é ainda mais difícil, muito mais difícil, lembrar de tudo isso, ainda hoje, muitos anos depois, quando o seu inconsciente já deveria ter trabalhado para varrer tudo pra debaixo do tapete e te fazer esquecer. Talvez ficasse uma ou duas sequelas, sintomas e sinais de que ali aconteceu alguma coisa, mas você não se lembraria, e daria um jeito de conviver com tudo aquilo de alguma maneira, e estaria tudo bem.
É assim que acham que vai acontecer com todas as crianças. Que elas esquecem, não entendem, jamais vão se lembrar daquilo um dia. Realmente acontece com algumas, claro, não posso jamais dizer que não.
Mas chega aqui pertinho, deixa eu contar uma coisa pra vocês: o inconsciente de algumas crianças simplesmente esquecem de cumprir o seu papel com excelência, e essas pessoas crescem com uma consciência absurda de tudo que sentiram desde, sei lá, dois ou três anos de idade.
Chega mais pertinho, pra ninguém ouvir: muito prazer, eu sou essa criança.


imagem daqui

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Sobre espaços e vazios

De certo ponto de vista, eu já superei o luto.
Por outro lado, parece que sempre tem alguma coisa pra eu falar sobre o que aconteceu, sobre o tempo em que eu estava grávida, ou qualquer coisa assim. E acaba que sempre menciono o assunto em algum texto ou conversando com alguém.
Eu não fico o dia inteiro falando ou pensando nisso, mas às vezes é inevitável.
Eu me esforço pensando em outros assuntos pra postar, mas nem sempre dá certo. 

Ontem foi um dia difícil - não o dia todo, teve momentos em que realmente estava bem, recebi boas notícias, vi coisas bonitas. Mas a dor de cabeça não se limitou a ser apenas aviso de início de ciclo e resolveu ficar por mais uns dias. Foi difícil. À noite, eu estava bem sensível e ainda dei de cara (na internet) com uma amiga do Cleber perguntando sobre o sexo do bebê. Pois é, parece que nem todo mundo sabe ainda. E eu chorei. Ele chegou em casa e me encontrou aqui no quarto sozinha, eu não queria contato com o mundo. 
Mas enfim, ele me abraçou, me distraiu, comi brigadeiro de panela às 22:00 e tudo certo.
Depois, já bem, fiquei pensando e até disse pra ele: parece que foi tudo um sonho, que não aconteceu de verdade.

Mas aconteceu, né? Eu passei por tudo isso. Eu tenho essa carga agora, que insisto em enxergar por um ótica diferente, pra ver se fica mais leve. Mas a verdade é que não é nada leve. Sempre vai existir o espaço que a bolota ocupou no meu corpo, na minha vida. Era tudo muito forte. E em alguns aspectos eu me sinto mesmo diferente. 
Sim, já é um capítulo passado agora. Não fico me lamentando, pensando que podia ter sido de outro jeito. Foi do jeito que tinha que ser, já entendi. A dor não vem mais como vinha antes. Essa é a parte que está "superada".
Mas existe um vazio. E não, ele não vai ser preenchido por ninguém. As lembranças já moram nele, ele já é preenchido. É o espaço do que passou, é onde eu guardo os sentimentos que eram da bolota (olhando desse ponto de vista, nem é tão vazio assim, visto que são muitos sentimentos, mas enfim); porque tem que existir esse lugar mesmo. Durante a gestação a gente vai estabelecendo uma relação com aquele serzinho, destinando sentimentos, criando vínculo e, de repente, da noite pro dia, não existe mais a relação, agora é só você de novo, pra onde vai tanto sentimento, joga fora? Não dá pra esquecer, também não dá pra vivê-los, então eu guardei nesse lugar.
Só que pela primeira vez eu "entendi" aquela frase: "calma, daqui a pouco vem outro bebê". Claro que nenhum filho vem para suprir o perdido, isso não existe; não existe voltar lá no passado e fazer uma troca. Em um nível bem diferente do real, eu já me sinto meio mãe. Mas me peguei pensando que terei, com o próximo, a construção de novas memórias, de novas coisas pra contar, de novos sentimentos pra sentir. E a grandeza de um filho aqui do lado de fora da barriga é infinitamente maior, no quesito experiência e intensidade de sentimentos, eu imagino. Vai ser mesmo real. Entendem? Ainda vai ter saudade, mas ela não estará mais sozinha, reinando absoluta na minha vida. Novos espaços serão construídos e preenchidos por seus devidos donos. 

Pode ser que seja isso, ou pode ser que eu esteja tentando enxergar as coisas por um lado mais suave de novo. Não sei, só o tempo poderá dizer. 
Até lá eu vou distribuindo essa carga em letras e outras coisas mais, e tentando pensar em novos assuntos para conversamos aqui.

não sei quem é o autor desta linda imagem; se alguém souber, me avisa que coloco aqui os créditos.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

Habemus ciclo

É isso, minha gente.

Não tem mesmo como fugir: somos feitos de ciclos.

Eu não fazia a mínima ideia de quando as coisas voltariam ao seu devido lugar.
11 dias de sangramento ininterrupto e mais 4 de escapes - foi assim no mês passado. Mas isso não é ciclo, né. Era o meu corpo trabalhando, fazendo uma limpeza poderosa.
E claro que depois desses dias todos, eu não queria nem pensar nesse assunto; tudo que eu queria era um pouco de paz e tranquilidade. Fiquei bem desencanada mesmo. Até porque ainda estávamos com a ideia de só tentar lá no final do ano.

Depois comecei a pensar "será que vai demorar quantos dias pra descer de novo?"
Não tinha como saber. Porque pra saber eu precisaria começar a contar de algum ponto, e estava tudo muito turvo ainda. Na minha cabeça que inventa as próprias verdades, pra mim tudo "começou" de novo quando findou de vez os sangramentos. Uma espécie de "ciclo ao contrário" - porque a gente sempre conta a partir do 1° dia da última menstruação, e em algum momento eu decidi que contaria a partir de quando estivesse limpa (nota da autora: essas contas se deram só semana passada, quando peguei o calendário pra dar uma conferida nos dias mesmo). Pra mim, aquilo fazia parte do passado, não dava pra contar aqueles dias todos como parte de um próximo ciclo - ainda era parte do que eu estava elaborando, de outro capítulo da minha vida, que começou em abril e terminou em agosto. Fim. Acabou sangramento? Ok, agora vamos começar a vida nova, renovada, mas ainda sem contas, porque essa ideia é coisa da minha cabeça e eu não posso me basear inteiramente nisso, era só pra colocar as coisas em perspectiva mesmo.

Mas os dias foram passando e eu fui notando umas mudanças.
Nas duas últimas semanas eu tive a maior tpm (de tamanho, quero dizer) da minha vida.
Fiquei mais irritadiça, um pouquinho inchada e minha pele - que se rebelou contra mim depois de tudo que passei e resolveu que essa era uma boa hora para ficar oleosa (raiva, raiva, raiva!), ficou ainda mais horrível. Já disse que fiquei com raiva dessa parte? Daí já comecei a pensar: estou de tpm. Não sei quando vai vir, não sei quanto vai durar, mas é oficial: estou de tpm.
Semana passada comecei a me sentir muito feia. Feia, inchada e chata. Nem eu me aguentava mais.
Eu sabia que estava perto, tem um sinal específico do meu corpo que sempre me avisa quando está pra vir - só faltava saber quando.
Nesse sábado, fiquei imprestável. Acordei me sentindo mal, pesada, com vontade de me enfiar debaixo das cobertas e só sair na semana que vem. Minha cabeça doía e parecia que eu usava roupas muito pesadas (mas era só pijama), porque eu me sentia limitada mesmo, sem contar a vontade de chorar a cada minuto. A ficha foi caindo aos poucos, fui me lembrando de um tempo longínquo, em que as coisas eram exatamente assim, difíceis. Fui dormir sabendo que podia ser a qualquer minuto. E domingo acordei com a novidade.

Exatamente no 33° dia, contando a partir do primeiro dia sem sangramento.
E vai parecer mentira, mas 33 dias é a média de duração dos meus ciclos sem anticoncepcional (quando eu usava eram 28 dias cravados). Foi exatamente isso que durou o que precedeu o positivo, inclusive (acabei de conferir). Ainda estou meio chocada com essa constatação, apesar de todas as provas que já tive sobre ser tudo muito perfeito e tal.

Percebo que coisas boas e horríveis podem acontecer, que uma tempestade de gelo pode cair no seu telhado, mas quando ela passa e você consegue respirar de novo, é bom sentir que certas coisas ainda estão no lugar onde você tinha deixado, com a diferença que agora você tem um novo olhar pra tudo isso.

E esse é o momento em que eu me rendo, jogo a toalha e declaro: natureza, você é foda!


Arquivo pessoal.